julho 20, 2022

Pergunte aos homens

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Sempre nos questionamos sobre os motivos que levam mulheres a entrar e permanecer em relações disfuncionais. Mas hoje, excepcionalmente, gostaria de falar sobre os homens. 


Lembro de na minha adolescência observar rapazes cujo maior objetivo era conquistar uma garota inacessível. Quanto mais cobiçada a garota ou quanto mais indisponível parecesse, o interesse aumentava. O cenário caótico não perdoava ninguém. Relacionamentos estáveis, instáveis, solteiras ou comprometidas, desde que fossem alvo de alguém, tudo ficaria mais gostoso.

Não foram raras as vezes que presenciei cenas que pareciam brigas de galo onde cada rapaz mostrava seu atributo para a mocinha escolhida. Eles se entreolhavam sérios e faziam votos para a menina de como poderiam ser melhores para ela. Quase quinze anos depois lembrar dessas cenas me dá muita vontade de rir.


Além disso, tinha a clássica história do cara que grudava na jovem feito carrapato depois de receber um não ou se julgar incompetente para uma disputa com outro cara. O primeiro virava o chato com espírito de Don Juan que usava todas as estratégias possíveis para dobrar a menina. Elas iam desde de usar de sentimentalismo barato como se tornar amigo dos amigos ou familiares dela e deixar claro a sete ventos seu interesse pela menina, seguido de uma cara de cachorro caído na mudança logo após ser repetidas vezes rejeitado, o que gerava comoção pública; demonstrar publicamente afeto: serenatas, pedidos de namoro, beijos roubados, buquê de rosas, carros de mensagem, marcações no instagram, montagens publicadas na internet; até mesmo sair com uma amiga para causar ciúmes ou perturbar essa menina em suas redes sociais com incessantes investidas dignas de pena. O segundo caso seria o do jovem que fica na friendzone na esperança de finalmente a escolhida perceber que toda aquela atenção da parte dele é amor (e não, elas nunca percebem ou se fazem de cegas), mas geralmente só ganham migalhas de atenção e sofrimento (auto imposto).


Tirando os casos onde o rapaz realmente conseguia um relacionamento afetivo com base na reciprocidade, em geral os relacionamentos giravam em torno do controle e domínio dessas meninas através dessas duas táticas: o pegador (que pode se apresentar enquanto sentimental, conquistador  ou a mescla que seria o Don Juan) ou o satélite (que ficava orbitando a escolhida na tentativa de sugar coisas dela). Em ambos não havia intenção real de se relacionar com uma outra pessoa além de si mesmo.


Explico. Ao usar a tática do Don Juan, o homem se mantém distante o suficiente para flertar quando é conveniente (melancólico ou de forma mais direta) e sumir quando der na telha. Ele é escorregadio, geralmente é muito intenso até que ocorre a conquista. Seu interesse real não é pela garota, mas sim pelo objeto de conquista/desejo que ela representa que, por sua vez, é apenas um espelhamento de si mesmo: Ele deseja se ver potente e consegue isso conquistando e descartando quantas mulheres puder. No outro caso, o cara da friendzone é marcado por um eterno martírio. O amigo das mulheres, aquele que é “aliado” da causa feminina, o que se auto impõe ficar perto da pessoa amada mesmo que esteja claro que nunca vai acontecer um romance entre eles e, portanto, vai escutar confidências sobre o interesse dela numa outra pessoa e, por isso, vai justificar diversos comportamentos passivo-agressivos para com essa jovem “amada”. Geralmente assume uma visão de que mulheres gostam de homens ruins ou que mulheres gostam de ser maltratadas mesmo que a realidade diante de si seja outra, mas nunca rompe com esse ciclo auto imposto de sofrimento. No fim, ele não gosta da mulher em si, mas da sensação de impotência, revitimização e, contraditoriamente, importância que a figura dela gera. Pois ao ser exposto a tanto sofrimento (ou melhor, se auto impor, pois era só não manter esse nível de proximidade com o objeto de paixão), ao mesmo tempo que isso causa um sentimento de tristeza também gera o de injustiça (já que ele é um rapaz tão bom e com sentimentos tão puros) e, por isso, justifica seu sentimento de raiva que o leva a validar seu sentimento primário de impotência com uma mania de grandeza. Assim, ao invés dele ficar apenas triste, vai começar a dizer ou pensar que ele é bom demais para ela (o que é apenas uma autoafirmação para aumentar a segurança interna abalada e não uma constatação real). Nesse segundo caso, a mulher também só funciona como um apêndice que retrata a própria insegurança desse homem frente a figura feminina. 


A questão é que os homens estão longe de serem vítimas dentro do patriarcado, uma vez que todos eles se beneficiam de alguma forma dessa estrutura que tritura mulheres todos os dias. Mas isso não significa que eles sejam tratados com humanidade pelo próprio sistema.


Apesar de ter me alongado mais do que gostaria, é aqui que verdadeiramente começo minha reflexão. 


Homens não sabem amar. 

Fato conhecido por quase todas as mulheres viventes pela quantidade inesgotável de violência que sofremos pelas mãos deles há milênios.


Mas homens também não sabem ser amados. 

O que é cômico visto a infinidade de mulheres os devotando suas vida. Para mim fica nítido o quão desconectados e perdidos eles também estão dentro da existência. Então seria interessante parar de perguntar apenas porque mulheres não têm amor próprio e levar essa pergunta aos homens também.


O que quero dizer é que essa obsessão de desejar uma mulher inacessível, uma mulher que te despreza, uma mulher que claramente não o quer e provavelmente não iria querer se soubesse de seus interesses reais revela não só o machismo em nossa sociedade da forma mais pura e vil, mas a total incapacidade dos homens de se verem como merecedores de um amor cultivado. Note que não estou dizendo que homens não se sintam merecedores de nada, muito pelo contrário, o número de violência só revela o quão esse movimento dominador também traz um quê de merecimento e propriedade. Estou dizendo que eles não se reconhecem enquanto pessoas que podem cultivar bons afetos enquanto atores (não apenas receptores de afeto) e que isso pode gerar resultados positivos. 


Qual motivo se não uma péssima autoestima, fomentada pelo sistema patriarcal, poderia fazer alguém PREFERIR se relacionar com uma mulher que claramente não gosta dele apenas pelo desejo de “dobrar” sua vontade e de ganhar um jogo emocional, como acontece no jogo de sedução do Don Juan ou da friendzone a um relacionamento horizontal? O quão distante essa pessoa está de si mesmo para achar razoável se tratar com tanto desrespeito?


O homem viciado em controle e dominância, é apenas um homem extremamente inseguro que joga para outros meios sua incapacidade de lidar com o fato de não ser “o homem” que achava que tinha que ser, mas que apenas não existe, é só uma fantasia para manter mulheres domesticadas e homens violentando ou sendo coniventes com a violência masculina. Esse homem que sai com muitas, aquele que não sai com nenhuma mas é amigo, o viciado em porno, o que fica babando em fotos de mulheres, o que trai compulsivamente, TODOS eles têm uma autoestima muito baixa e compensam toda essa insegurança na figura feminina. Um homem que conhece a si mesmo viveria a vida real sem fugir para toda essa busca hedonista descontrolada (afetiva, psicológica ou sexual).


Falamos muito sobre todas as vantagens que homens têm com essa desigualdade nos relacionamentos e é totalmente verdade, mas pouco paramos para perguntar porque eles ainda se mantêm nesse jogo doentio. Por que preferem tudo que é pouco profundo em suas vidas quando poderiam viver algo simplesmente real? Que senso de pequenez homens têm de si mesmos que não conseguem se ver como pessoas dignas de trabalhar por relacionamentos, mas querem tomá-los a força, querem manter relações no grito ou no terror psicológico, querem dar o mínimo e receber muito, querem a atenção de mulheres que os ignoram para se sentirem poderosos (o que nunca se sentem de verdade, já que o comportamento se repete ciclicamente mostrando que ainda há uma falta)? Por que alguém em plena condição mental iria forçar uma outra (da forma que seja) a ficar com ela?


Por que quando falamos em mulheres observamos a dependência emocional e a falta de amor próprio e estamos deixando passar esse debate batido pelos homens? É óbvio que não estamos na mesma posição e seria totalmente descabido olhar homens como vítimas de um sistema que só os favorece. A questão não é essa, mas se queremos tratar o problema na raiz precisamos ver que não são só as mulheres que estão adoecidas. Nós sentimos o peso porque sofremos inúmeras violências pelas mãos masculinas. 


É hora de homens falarem sobre o quão diminuta a sua existência realmente é, o quão tomar as coisas à força e ter tudo de mão beijada os torna pessoas sem nenhum mérito próprio e autoestima e tudo que conseguem é emular um personagem falso. Aceitar que pode e merece receber amor real (fraterno, erótico, familiar) é uma benção que todos deveríamos ter. E falo de um amor mútuo, onde ambos os envolvidos dão e recebem proporcionalmente e não só onde homens dão 5% e cobram 95% de mulheres. 


Pensemos em um mundo onde não faça sentido pessoas se sentirem tão mal consigo mesmas, que continuem reproduzindo comportamentos que só as mantêm com um vazio emocional imenso que é despejado nos outros (em geral, inocentes). É preciso falar sobre o fato de que homens não sabem amar e não sabem receber amor. Se tratam como máquinas para tudo e só lembram de falar sobre sentimentos para justificar suas falhas. Que isso acabe! Queremos 24h sem sermos objetos. 24h onde homens entendam que é permitido sentir/fazer aquilo que consideram fraqueza como responsabilidade afetiva, carinho, afeto, cuidado, diálogo claro. 24h de conversa real, sem segundas ou terceiras intenções.


Essa necessidade de conquistar a mulher, de dobrar a garota, de cobiçar quem não lhe quer (e falo de mulheres que nunca expressaram verbalmente que querem algo a mais), de querer um território virgem para desbravar (vide todos os personagens de novelas e filmes que retrata a mulher "selvagem" que se torna doce e feminina como a Juma de Pantanal e a
Kat Stratford de 10 coisas que odeio em você) e
de "domar" a fera (a feminista que vira dona-de-casa como a Catarina de O cravo e a Rosa), por exemplo, é também um grito de impotência masculino, uma constatação da incapacidade de lidar com uma relação horizontal com mulheres onde as duas pessoas estão ali sem máscaras prontas para se conhecerem de verdade. Mas como os homens se permitirão conhecer uma mulher de verdade se boa parte não conhece nem a si mesmos? Se só reproduzem o que eles devem ser como homens, mas são totalmente desconectados de si mesmos e de suas emoções? Não é que homens não sintam nada. É claro que sentem, mas só validam seus sentimentos e emoções negativos (raiva, frustração, inseguranças) e convertem muito disso em violência ou infantilização (como se não pudessem dar contas de suas próprias ações e fossem obrigados a agirem assim ou assado), mas pouco trabalham a si mesmos para questionarem de onde vêm seus sentimentos e suas atitudes. Poucos homens querem realmente se conhecer. Como se se abrir para essa experiência significasse sua morte, aniquilação ou os "tornassem" mulheres.

 A relação real desmonta os personagens, as idealizações, a vontade de congelar a pessoa em um personagem (a mulher safada, a conselheira, a boa mãe ou dona de casa, a amiga que topa tudo ou aquela mulher que concorda com tudo ou só fala coisas que demonstrem o quão sua inteligência é pequena em relação a desse cara). E é quando nos abrimos para relações reais onde ninguém precise salvar alguém ou ser salvo que podemos conhecê-los 

 Para vencer o patriarcado é preciso que homens PAREM urgentemente de se verem (e de se justificarem) como seres primitivos e animalescos que não se controlam, que não sabem se conectar com suas próprias emoções, que não sabem o que querem da vida, que buscam futilidade em cima de futilidade ou querem tratar todas as mulheres do mundo como extensões de suas mães (que também funcionam como espelhos deles mesmos).


É preciso que nos perguntemos: qual motivo leva um homem a querer uma mulher que não quer ficar com ele? Por que ela? Por que ele não aceita a rejeição e usa tantas táticas para vencer isso na base da dominação sentimental, sexual ou psicológica? Isso é problema de autoestima. Esse homem tem um valor próprio muito pequeno e não se abre para viver a vida real que requer comprometimento com suas ações e consequências. É preciso que homens queiram aprender a amar para que parem de viver suas vidas pela metade. 






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