Apesar de tentar ao máximo me manter com os pés nos chão, sei que facilmente voo para um mundo imaginário onde tudo dá certo e as coisas funcionam à minha maneira. Há um tempo vi um vídeo precioso falando sobre os perigos do devaneio excessivo e só então pude ressignificar esse hábito tão comum que, por tantos anos, me ajudou a lidar com os problemas da vida, ou melhor, a não sentir tanto os impactos dela.
Eu não fazia ideia de que fantasiar cenários (positivos ou negativos) que não aconteceram era um hábito nocivo para nós. Não conseguia concatenar que ficar presa no mundo do ideal me impediria de viver o melhor da realidade, pois deixaria todos os bons momentos se tornarem apáticos só por não corresponderem a toda expectativa criada no cenário fantasioso. Por isso, ver esse vídeo foi um despertar bom. Daqueles que não machucam, mas evidenciam que muita coisa precisa mudar.
Desde então, ao invés de sofrer tanto com a realidade (no momento em questão eu sofria com uma grande depressão e ansiedade), passei a ter acompanhamento psicológico regularmente para lidar com minhas (muitas) questões e exercitar meu cérebro a lidar com a realidade por mais neutra que ela parecesse.
E repare: a realidade não era ruim, mas eu tinha me condicionado por tantos anos com projeções de filmes, uma paixão avassaladora que durou anos e até uma realidade instável anteriormente que a vida normal (e calma) era assustadora. Eu não sabia como lidar, então criava subterfúgios mentais onde pudesse me esconder dessa novidade e do medo que sentia de não ser boa o suficiente.
Como foram anos me sabotando com esses pensamentos megalomaníacos onde eu era presidente do país, melhor atriz do ano, campeã em qualquer esporte em um campeonato mundial ou convidada a fazer parte da Academia Brasileira de Letras (e sim, meus devaneios excessivos giram em torno de eu ser a melhor em atividades que eu não domino e nem me interesso normalmente), passei a me dar pequenos desafios para enfrentar esse medo tão grande de me expor quando claramente eu queria holofotes e me sentir boa em alguma atividade. O medo não iria sumir e eu não me tornaria outra pessoa do dia pra noite, então me coloquei para o desafio da mudança com atitudes constantes que poderiam me aproximar do resultado de apreciar mais a vida real.
Foram pequenas alterações no cotidiano: meu hábito de desenhar se tornou regular e passei a me desafiar a reproduções melhores e pinturas mais sofisticadas. Fui tornando esse um hábito saudável em que eu podia me orgulhar de minhas conquistas e obter prazer no processo de desenho e pintura, e não focar só no resultado final. Também criei um blog só para me dedicar a minha escrita e toda vez que via algo interessante ou tinha uma nova ideia, escrevia e publicava esse novo texto. Foram contos, crônicas, reflexões e poemas escritos da pura observação da vida. Isso me deixou mais atenta para a realidade já que eu precisava prestar atenção nas coisas para escrever, também abriu a oportunidade de publicar meus textos e me revelar como escritora. Com esse processo pude testar minha capacidade criativa, me tirar da zona de conforto e me expor enquanto a artista que sou. Agora não precisava mais me validar em grupos (como fazia na dança) ou ter vergonha de minhas conquistas pessoais por me achar uma fraude, podia reconhecer meus talentos porque os resultados estavam diante de mim e, melhor, eu os amava independentemente de terem culminado em um reconhecimento externo, pois antes disso (bem antes) eu já estava feliz só de tê-los feito.
Foram anos me treinando para não ter medo do básico, me expondo em pequenas situações que abriram caminho para uma certa confiança, recebendo não's quando me voluntariava para algo e também lidando com os sim's que muitas vezes eu não estava pronta para aceitar. Gravei vídeos para meu canal no youtube, fiz posts históricos, submeti artigos e finalmente me revelei a profissional de História que sou (por mais medo que eu tivesse dos julgamentos a esse respeito, pois a área acadêmica me é muito cara) e me coloquei tanto para sair da zona de conforto dos devaneios excessivos que acabei tomando gosto pela vida real. Não que não tenha meus momentos imaginando como seria isso ou aquilo, a questão é que agora isso não me paralisa, não rege minha vida e não frustra meu dia-a-dia, pois a realidade de estar é muito maior do que a sensação de não-ser (e só ser algo em minha nefasta imaginação).
Ainda tenho muito o que caminhar e muito a construir. Só Deus sabe as lutas que travo e quais objetivos tenho para a minha vida, mas sei que o principal é sempre me manter aberta para o melhor e tentar construir hoje com o que tenho, passo a passo no dia-a-dia, pois nada vem pronto e fácil (só coisa ruim).
Esse pensamento me veio devido a dois programas que assisti: De volta a Neverland (um documentário da HBO em que denúncias contra Michael Jackson são feitas) e Segredos da Playboy (série da Discovery com quase o mesmo objetivo, só que contra o Hefner). Aqui o importante não é fazer uma sinopse sobre os temas que são tratados, mas o que me chamou atenção nas duas produções é a ilusão e tentativa de criar uma vida perfeita e com muitos ganhos. As duas mansões compradas e mantidas por homens riquíssimos, à frente do seu tempo nos negócios e muito poderosos eram um verdadeiro parque de diversões à sua maneira. Neverland era, literalmente, um parque de diversões já que o objetivo de M.J era manter sua criança interior viva o máximo que pudesse, mantendo, inclusive, amizades próximas com crianças para sustentar seu delírio. E, claro, não me refiro a uma amizade saudável de um adulto e uma criança onde o maior de idade apenas cria um mundo lúdico de interação com o menor, mas a uma relação onde a diferença de idade, maturidade, pensamentos e todo o resto é ignorada por uma infantilização forçada (e só tolerada a base de milhões de dólares). No outro caso, falo de um parque de diversão de homens adultos, cujo significado é uso desenfreado de mulheres jovens e bonitas a seu dispor financiado por muito dinheiro, drogas e tudo mais que desejarem sem terem que lidar com as responsabilidades da vida adulta. Um mundo onde todo homem pode acreditar na farsa de que existem lindas mulheres com corpos esculturais e quase sem capacidade intelectual que, mesmo tendo melhores opções de vida voluntariamente se permitiram ser catalogadas em um cardápio, prontas para serem consumidas pelo homem que pagar mais. Nessa realidade, elas não tem um nome de verdade (mas um de guerra), não tem opiniões, história de vida, complexidade ou vontade, apenas cumprem o único objetivo de satisfazer a pequeneza dessas pessoas que não querem lidar com a realidade: de que tudo aquilo não passa da maior ilusão e de que, provavelmente, elas nunca dariam bola para eles foram daquela realidade fantasiosa.
Seja como for, a ilusão criada nesses dois cenários quase míticos é de que é possível ter tudo que quer, quando quer mesmo que isso ultrapasse a regra básica do bom senso. Onde os ganhos são tantos, os benefícios são tão fáceis e a vida parece tão mais legal que chega a não ser crível. Porém, a exaustão cotidiana realmente nos faz querer ter um pouco de paz e alguns momentos de descanso onde possamos esquecer que somos adultos cheios de responsabilidade e com medos, frustrações e muitos b.os para lidar. Então entendo que queiramos fugir para essa zona de ilusão como a do devaneio excessivo ou tais ambientes reais onde a vida é tão surreal que te desconecta totalmente da realidade. Mas vendo o relato das pessoas que por ali passaram e não só isso, olhando só para a realidade de que tudo que é bom e verdadeiro é construído por cada pessoa (indivíduo) aos poucos, cada lugar desse me mostra o quão fugaz e persuasivo eles são. Claro que as experiências devem ser alucinantes e, em muitos casos, ótimas, mas não vale a pena trocar a realidade por uma ilusão, nem a que nos machuca, muito menos a que machuca os outros (como nos casos citados).
A vida não é justa com a maioria de nós. Somos esmagados sem um pingo de consideração ou pausa e buscamos lugares para lidar com essa dor quando não sabemos processá-las. Eu sei como é. Mas viver essa ilusão de que é possível ter tudo ao mesmo tempo e de que não há um preço pelas coisas (preço real e não financeiro, me refiro a consequências) é criar um abismo para si mesmo. Por mais que fechemos os olhos, a realidade é dada. Ela não muda por nos vendarmos, por negarmos ou por ignorarmos, ela só pode mudar e melhorar quando agirmos em prol da melhora.
É difícil lidar com a pequeneza da vida. Ter que assumir para si mesmo que não é tudo aquilo que imaginava e que em tal idade ainda não conseguiu chegar em tal lugar ou que mesmo sendo sua melhor versão ela ainda é preterida é um saco! Realmente. Mas enquanto não acolhermos nossas dores, continuaremos negando a realidade que está em nossa cara, faltantes, frustrados e encolhidos sabendo que aquilo que temos não é real, mas só uma ilusão de como tudo poderia ser. Por mais difícil que seja aceitar a realidade, isso nos abre a possibilidade de criarmos algo novo e melhor, uma conexão real e viva, sem ilusão ou fakes.
Mesmo que seja menor e talvez não tão excitante ou glamuroso, a construção diária daquilo que queremos nos tira da ilusão e nos faz apreciar a vida real. Que possamos (falo para mim) construir a cada dia uma realidade aprazível a nós.





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