Eu estava vivendo minha vida nas minhas melhores férias em 10 anos e precisei checar o e-mail. "Por quê?"- Eu me pergunto, justamente hoje. Eram os relatos do meu namorado sobre o que parecia ser o pior dia da sua vida.
Ok. Confesso que depois de uma década de relacionamento eu não estava pronta para dizer adeus da maneira mais adequada do mundo. O dia dos namorados estava chegando, eu sabia que algo estava prestes a acontecer, meus pais se divorciaram e minha cabeça estava embaralhada que só. Mas ok, não podia ficar pior, eu achava. Mas podia sim.
Acordei cedo, como sempre, igual um zumbi. Fui para o trabalho animada. A rotina havia mudado e o chefe estava contando conosco para algumas adaptações na empresa. Me chamou na sala dele assim que eu cheguei. Minha produtividade tinha aumentado e os lucros da empresa estava aumentando por causa do setor em que trabalhava. Mas aparentemente não estava tão bom assim e fui demitida. Assim, na maior cara dura depois de dez anos de trabalho leal.
Não entendi nada. Tive uma crise de choro, fui amparada pelo chefe que tinha acabado de arruinar a minha vida e não sabia o que fazer. Só sabia que eu não podia voltar pra casa. Não com aquela notícia.
Parei no meu café preferido e fiquei refletindo sobre minha vida. Aonde eu ia chegar, meu Deus? Estava no auge dos meus 29 anos, fiquei parte da vida em um emprego que não me agregou quase nada, um namoro gigantesco sem pretensão de upgrade. Nada parecia estar certo. Eu nem sabia mais quem eu era.
Por uma década eu fui tudo o que os outros queriam, fiz tudo o que queriam, vivi o que queriam. Não me comprometi comigo mesma, nunca aprendi a tocar violão, nem viajei para os meus lugares preferidos, fiquei apenas existindo. E me deu um estalo, eu precisava fazer algo.
Então fiz minhas contas e vi que não tirava férias sozinha há muito tempo. Não seja por isso. Peguei meu notebook e fiz a minha maior loucura da vida. Comprei uma passagem de 3 semanas para as Ilhas Maldivas. Eu sempre ganhei bem e guardei muito dinheiro, então, essa era a hora.
Tive um dia de surto. Saí por aí comprando coisas que eu sempre quis, parava e chorava do nada por estar sem emprego, depois saía mais extasiada ainda. Enfim, um dia de loucura. Só esqueci que no outro dia era o dia dos namorados.
O que faria? Bem, nos últimos 3 anos temos andado xoxos, ele parece aéreo, só vive fazendo contas e me deixando de lado. Se eu falar para onde vou, ele vai atrás, se eu tentar terminar, ele vai fazer drama. Eu só quero um pouco de paaaaz!
Bem, o jeito é fugir e deixar um recado. Paguei um moleque para deixar um bilhete as 20h, meu vôo saia as 8h. Ele fez questão de eu dormir lá para acordar com ele, dormi porque queria que ele visse que aquilo não era um adeus. Eu só precisava de um tempo para mim.
Nunca curti tanto na vida. A água cristalina, o céu azul e aquele desejo de mãe de trigêmeos de ficar só. Nossa, era tudo o que eu sempre quis. Por dias me esqueci da minha vida. Não acessei e-mail, desliguei o celular. Refleti, meditei, me reconectei. Vi um mundo que jamais conheci, uma vida que nunca vivi. E tudo isso estava diante dos meus olhos.
Fui ao paraíso físico para encontrar o paraíso mental e me assustou não sentir falta de nada o que tinha antes. Paz era tudo o que eu queria e tudo o que eu estava desfrutando.
Até que eu olhei meu e-mail e tudo mudou. Deixei pra trás o rastro de tristeza por alguém abandonado, minha mãe mandou trocentas mensagens e amigos desesperados. Pera, mas não abandonei ninguém? Mas ok, eles não sabiam disso. Eu só precisava de um tempo pra mim, pra descansar, era difícil esperar minha volta?
O mais difícil de ir para o paraíso é voltar para a Terra.
Que bom que já estava acabando mesmo. Foi melhor para eu ver o que eu precisava, sem ninguém para me dizer o que fazer. Quanto ao namoro, acabou e foi melhor assim. Quanto a minha mãe, se virou sozinha e os amigos, ah que amigos? Deixei tudo pra lá e fui seguir minha vida.



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