Caixa de e-mail: 14. 02. 2003
Era dia dos namorados, acordei e não te vi. Nenhum recado, nada de flores, nem o som da sua voz. Estranhei aquilo tudo acontecendo, mas não quis acreditar. Tomei um café reforçado, saí cedo e o dia estava lindo. Um céu azul claríssimo daqueles que te dão vontade de viver. Me senti produtivo e feliz.
Passei naquela cafeteria que você adora, comprei o combo de sempre e fui. Loja de flores, de amores, chocolates e aquela bolsa feia de que você tanto falava - e achava linda. Não era nem 9h da manhã e meu celular não parava de tocar, mas eu não estava tão ligado, naquele dia eu sabia que minha vida ia mudar.
O tom aéreo não em caiu bem. Esbarrei na primeira desconhecida que vi pela frente e derrubei tudo no chão. Sabe como é, né? Rua cheia, todo mundo de cara amarrada, suco de laranja por todo lado e nem o dia mais florido do ano conseguiu amenizar a situação. Arrumei o que dava e segui. Passei rápido no trabalho só pra conseguir a liberação. Não consegui, a empresa estava cheia e eu tinha que trabalhar. Aquele cara das contas faltou porque a filha ficou doente ou algo do tipo.
Terminei meu expediente cedo, mas não garanto que saiu tudo certo porque precisava correr. Fingi diarreia pra sair cedo. Consegui. Não sabia que me custaria tanto um dia como esse. Passei naquela loja linda de fachada azul bebê. Todo mundo cheirava bem na loja, nunca fui tão bem tratado. Mas não era por menos, economizei alguns anos só pra poder pisar ali e ter aquela coisinha prateada em mãos (sei que você não gosta de dourado).
Banho, roupa nova, vinho, flores (um pouco amassadas, aliás), sua bolsinha feia e uma caixinha azul. Você não é muito de surpresas, mas achei que dessa você iria gostar. Ficou ausente o dia inteiro pelo charme, eu sei. Estava doido para ver seu cabelo enrolado caindo no rosto, daquele seu jeito inconfundível. O nervosismo não parava, o coração só faltava bradar, barulho de salto no corredor. Ops, foi no vizinho.
Recebi uma carta por debaixo da porta. Corri pra pegar e abri rápido. Tudo era tão emocionante e animador. Mas foi apenas um menino franzino de entregador Mas tudo bem, nada anulava aquele clima de romance. Pelo contrário, só aumentava.
Eu estava muito animado. Me aprumei, estiquei bem as pernas sob a cadeira daquela mesa de jantar posta. Ok, não sou de cozinhar, você sabe, mas nesse dia comprei algo do nosso agrado: pizza! Abri a carta lentamente. O envelope vermelho lacrado só alimentava minha ansiedade. Eu estava adorando esse jogo. O papel era duro, amarelado, daqueles de convite. Ela me pediria em casamento?Não, era muito tradicional pra inverter a regra! Estaria grávida? Meu Deus! Vou ser pai? O coração a mil e...
"Preciso de espaço. Volto quando der." - ela disse
Lábios secos, olhos perdidos e uma caixinha com nosso futuro. Foi assim meu dia dos namorados.
Decepcionado e abandonado, com uma caixa em mãos, fiquei ali pensando no futuro e agora, depois de 3 semanas, resolvi arriscar. O que passou pela sua cabeça? 9 anos de namoro e um sumiço? Me senti no direito de te escrever. Gostava de cartas, mas para ser impessoal o bastante e-mails ainda são melhores.
Obrigada amor, só não precisa voltar. Vou pro apartamento que comprei pra nós. Agora para mim.
Ass. Nando.



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