janeiro 03, 2018

Não se deve menosprezar o sentimento alheio

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Tenho visto, em meio a tantas postagens no facebook, uma enxurrada de pedidos para que o sentimento alheio não seja diminuído, de alguma forma. Mas, fato é, que esse pedido é negado até mesmo pelos que o escrevem. Até mesmo por mim.

Há algum tempo, tenho observado a manifestação de alguns alunos e ex-alunos de universidades (sobretudo públicas) com algum tipo de sobrecarga mental. Essa sobrecarga foi gerada pelas inúmeras pressões do seio acadêmico. Caro colega, se você fez faculdade privada e teve flexibilidade para ter uma vida além faculdade (e um emprego), esse texto provavelmente não vai te contemplar.  Pois o seu cansaço é decorrente de ter que trabalhar e estudar. Falarei disso em outro texto. Falo aqui de pessoas que se dedicaram por, no mínimo 4 anos, a viverem quase que exclusivamente uma vida universitária hard core (não entremos no mérito de ser um bom aluno). Digo no sentido de estar envolvido com o ambiente universitário o tempo todo.

Minha experiência foi na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (uma das universidades mais lindas do mundo, aliás). Amada por todos os alunos, a Rural é calorosa e acolhedora. Por ser em um município no "interior", a maioria dos alunos precisam morar no campus ou no bairro vizinho. Os outros, se revesam numa dura jornada de uma graduação (quase) integral e suas vidas. Disse quase integral, pois os módulos "diurno,"vespertino" e "noturno" não passam de pura enganação, já que por vários períodos somos obrigados a puxar disciplinas fora do horário compatível com nossa grade regular. Aliás, para quem é obrigado a fazer 4 estágios, é impossível cursar a faculdade em um turno apenas.

Nessa onda de alunos relatando os abusos sofridos, os quais muitos eu me identifiquei, comecei a observar também a ala dos professores revoltados por terem suas figuras bestializadas na internet. 
Ninguém sair de vilão, não é mesmo? Mas o mais interessante, é que alguns professores, realmente não são contemplados nesses discursos, já que os mesmos se esforçam para tornar o ambiente universitário o melhor possível.

Não podemos fingir que a vida acadêmica é simples e sem luxos. Na verdade, estou  mais perto de considerar um mundo a parte do real, cheio de vaidade e numa lógica bem religiosa onde os princípios expostos por alguns professores são dogmas e muitos alunos se tornam seus discípulos. Mas como disse antes, não são todos assim. Muitos não são.

Em um curso como História - com a maior taxa de depressão do país - não é difícil imaginar que alguma coisa esteja acontecendo dentro da sala de aula que de alguma forma interfere nos alunos, uma vez que a maioria relata que não tinha depressão antes da faculdade. Não é difícil de saber disso, é só perguntar a algum aluno entre o 4º ou último período da graduação.

O fato é que a defesa da academia acabou, mais uma vez, sufocando os alunos que pediam socorro. Aliás, nem todos nascemos com a super capacidade da academia. Digo ainda, que poucos sãos os que realmente poderiam ser considerados acadêmicos (pelo grande prazer na pesquisa). Alguns são só bons estudiosos, outros serão bons mestres e outros só querem um bom emprego.

Quando as cobranças de ser uma pessoa melhor e mais justa, filiada a todas as causas sociais existentes de acordo com determinada perspectiva, claro - pois digo com toda certeza de que NÃO há espaço para todos os argumentos na universidade- apertam, fica muito difícil ter prazer em ser estudante.  Aquele aluno fica sobrecarregado e tende a se frustar por não conseguir suprir suas próprias idealizações do que é ser um bom estudante e também não chega perto daquilo que seus professores (30, 40 ou 50 anos mais velhos) já conseguiram chegar.

Por outro lado, a classe dos professores (que não são abusivos) precisam cobrar métodos, técnicas e resultados para formar bons profissionais. Nada além do normal, claro. Mas não são eles que causam danos psicológicos, são alguns poucos doidos patrocinados por um sufocante sistema.

Mas além daquilo que já é esperado de uma universidade: a formação de bons profissionais; a cobrança para ser uma boa pessoa - de acordo com a moral específica do curso e universidade- sufocam muitos jovens. Outros, são sufocados pelas imensas reprovações, professores que dominam a cadeira, professores que não mudam o método de ensino e humilhações para variar.

Não é preciso dizer que não são todos os professores que agem assim. Mas uma característica inconveniente por parte de um professor, somada a de outros professores, gera um grande estresse. Agora, imagine o estresse gerado por uma características inconvenientes de vários alunos. A única diferença é que a voz de poder da sala não é a dos alunos.

É meu povo... isso não vai terminar tão cedo.
Nossos alunos estão amargando, pois nossos professores estão amargos.
Nossos professores estão amargos, por tantos alunos irresponsáveis.

Volto a dizer que não se deve menosprezar o sentimento alheio.
O sentimento de um aluno é válido, o de um professor também. E ambos podem estar frustrados pelo sistema educacional desse país ser muito ruim. O que não se deve fazer é, na luta para que seu sentimento e seu esforço não sejam ignorados, passar igual um trator em cima do sentimento dos outros.

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{Sobre o curso de História, especificamente, vejo um fenômeno que se repete. Boa parte dos alunos entra com o sonho de mudar o mundo. Inocentes e novos, ainda não tem um senso crítico apurado sobre a desigualdade social, etc. O que temos, em grande parte, é fruto daquilo que nossos professores de ensino médio incutiram em nossas mentes mais tudo o que aprendemos em casa. Bem, não preciso dizer que o choque de realidade é imenso. Mas com o passar do curso, a crítica do mundo vai ficando cada vez mais intensa e com isso, o desencanto com o mesmo também. Somos levados pelo fluxo normal do curso a sermos muito céticos (e ao mesmo tempo muito crédulos politicamente falando). Obviamente que essa postura gera um desequilíbrio. Algo que pode ser observado nessa geração mais nova. Se isso tem relação com os professores eu não sei. Acredito que seja um misto de coisas, mas principalmente a frustração com a nosso mundo de faz de contas e "sucesso" criado por nossos pais e perpetuado por nós mesmos.}


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