janeiro 20, 2018

Desabafo sobre a paciência imposta aos recém-casados

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Toda vez que alguém decide se casar (oficialmente ou não), um mundo de outras pessoas também decide que aquele é o melhor momento para aconselhar os noivinhos. A cada encontro com alguém mais experiente, uma história, um “cuidado”, um “vai acontecer isso e aquilo”. É de se admirar que poucos conselhos sejam realmente bons e poucos falem sobre coisas práticas a serem feitas no dia-a-dia. O casal sofre, na maioria das vezes, com uma enxurrada de informações ruins sobre a vida a dois e são desestimulados a terem fé no relacionamento deles.

Logo no início, a começar do chá de panela, dizem que o que você mais precisará ter é paciência. E olha, pelo menos nisso, não estavam errados. Já dizia alguém que conselho bom é conselho pedido. Não é regra, mas geralmente o conselho que valorizamos é aquele pelo qual nos interessamos. Do contrário, todas aquelas palavras são ignoradas e até as coisas boas são deixadas para trás. 

Por sermos novos, nunca temos a chance de fazermos nossas próprias escolhas sem que vozes fiquem ecoando em nossa cabeça nos dizendo o que devemos ou não fazer. Se você mora no Brasil simplesmente não tem liberdade nem de escolher o que fazer da faculdade sem que 30 pessoas já tenham opinado sobre o curso ideal a ser feito, baseado em um primo ou sobrinho que "deu certo" na vida. Depois, todos te cobram sobre a duração de sua faculdade. E quando você finalmente se forma, nossa! Aí surgem pessoas determinando qual área é ideal de seguir. São todos especialistas em nada que dizem saber de tudo.

Se isso tudo se reflete na questão profissional, imagina quando falamos de casamentos e filhos. Bem, a conclusão que tenho é que a maioria das pessoas que são casadas DETESTAM essa condição. Prefeririam ter se casado 10 anos depois, nunca ter se casado ou teriam escolhido um parceiro melhor, sei lá. Sei que quando você tem menos de 25 anos e diz que vai se casar, automaticamente um peso é jogado nas suas costas. Mas ao responderem se sentem arrependimento por terem casado cedo, dizem que não. Logo após, começam as intromissões sobre quando ter filho, a quantidade de filhos e de como cria-los. E cá pra nós, mulheres são extremamente inconvenientes quando o assunto é família.

Isso é desestimulante e triste. Um balde de água fria no meio da sua cara num dia em que está fazendo 20 graus. É como ver na previsão do tempo que vai chover, cancelar a ida pra praia e no fim ser um erro da previsão. Ninguém quer saber como a vida de casados pode ser péssima, não é pra isso que um jovem casal junta as escovas. Mas o dessabor da vida deixa algumas pessoas tão amargas que é difícil controlar.

O que você espera das tias de meia idade é que elas te contem como passaram por N situações chatas e conseguiram vencer. Como foi difícil várias vezes, mas elas não desistiram e se mantiveram firmes na convivência com outra pessoa, no trabalho, na criação dos filhos. É bom saber como alguém que tem mais experiência que você, viveu a sua vida. Suas histórias, seus amores, seu passado. Sabendo que quem é mais velho é gente como a gente, nem sempre foi chato, já foi super badalado e um da parou pra construir tudo o que conhecemos. Você não quer saber que o homem muda quando casa por um motivo totalmente fluido e aleatório (e que você tem certeza que o mesmo já demonstrava o mesmo comportamento reprimido antes de casar), porque isso só vai te dar medo, vai criar um terror psicológico e uma raiva antecipada de uma coisa que pode nunca acontecer. Ou melhor, vai acontecer porque realmente é diferente dividir o teto com outra pessoa, mas essa mudança pode ser muito positiva. Isso é ser humano, é viver uma vida. 

A vida não está aí para dar tudo certo, mas para aprendermos com ela. E se quem devia nos ensinar não tem paciência para fazer isso do jeito certo, não deviam nem tentar. 

O que é incrível nisso tudo é que a tal paciência que tanto falam, pode ser aplicada antes mesmo do casamento ao ouvir estes comentários. E depois dele, claro, quando começam a opinar sobre seus futuros filhos. Paciência essa que é testada dia após dia, pois você é imbecilizada a todo instante já que, para os outros, não consegue tomar pequenas decisões sem que alguém te diga o que acha melhor ou o quanto você é infantil por não tomar a decisão que eles querem.

Incrível concluir que essas pessoas demoram até 20 anos para chegarem a essas conclusões, mas não tem paciência nenhuma para entenderem que você não tem a experiência dela, você tem 20 anos a menos. Se ela com 40-50 anos demorou um tanto de vida pra entender aquilo por que justamente você faria o contrário? Só porque ela está falando?

Sabe? As vezes tenho a impressão de que os conselhos gratuitos chegam a nós mais como uma limpada de consciência de quem fala do que uma real preocupação com quem está ouvindo. É como se a pessoa falasse: fiz a minha parte, se quebrar a cara não foi por falta de aviso, ok? Mas tá, e como fica o dia-a-dia? E a preocupação REAL de saber como está a adaptação do casamento? E a disponibilidade para ouvir e ajudar alguém que realmente não sabe o que fazer porque ela nunca passou por algo parecido? Não, isso não existe.

Os conselhos vêm como vendavais. Você não sabe de onde está vindo, para onde está indo ou para que serve, pois na hora que você mais precisa não tem alguém pra te aconselhar.
Parece que as pessoas ficam esperando dar errado. Seu marido começar a te tratar mal do nada, você ter insônias terríveis porque não tem ajuda para cuidar do seu filho, as brigas brotarem do chão (mesmo se você for um casal que não resolve as coisas gritando). Sim, parece que estão torcendo para dar errado porque o deles deu errado. E talvez dê, uma coisa ou outra, ou tudo desande mesmo, mas não vai ser o conselho de alguém que nem importa contigo que vai fazer diferença. Não vai ser ele que vai fazer você mudar de rumo, pois nós damos valor a quem nos importamos.

Não faz sentido, caro adulto super experiente, chegar do nada e sair falando como isso ou aquilo deu errado em sua vida. Simplesmente porque você é você e essas são as suas experiências de vida. Claro que existem coisas que são universais, mas é certo de que a pessoa só vai ouvir alguém em quem ela confia e respeita. Não vai ser qualquer tia dos outros que vai falar e pluf-plaf-zoom tudo mudou.

Se você tem filhos, não pode cobrar de alguém que não tem, o carinho, o amor e a responsabilidade que você só passou a sentir depois do parto. Do mesmo modo, se você está na meia-idade não pode cobrar de alguém mais novo que tenha a experiência que você tem. É claro que o cuidado é necessário, mas o zelo não pode ultrapassar os limites da vida e das escolhas de cada um. Cada cabeça é um mundo. O seu mundo só é bom para você, porque só você tem a sua cabeça. 

No mais, deixem os casais viverem. Eles precisam ter suas experiências e precisam de apoio. Precisam saber que podem contar com alguém que não ficar julgando, dizendo o que devem ou não fazer a cada cinco minutos. Precisam de autonomia. Quando nos importamos em determinar o que os outros têm que fazer é porque somos infelizes com o rumo da nossa própria vida.

É preciso paciência quando você tem 20 anos e te cobram uma maturidade de 50 (que foi resultado de muuuuuuuuuuuuuita experiência). 

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