novembro 22, 2017

Sobre o luto que não vivemos

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Luto, de acordo com o dicionário, é sentimento de tristeza profunda pela morte de alguém. A morte de alguém querido. O sentimento de nunca mais vê-lo novamente. Mas, as vezes, o que morre nas nossas vidas não são apenas as pessoas. 

A nossa única certeza é de que um dia vamos partir desse mundo só D'us sabe para onde. E essa inquietação de quando nós e nossos amados vamos pro outro lado gera um vazio, um medo do desconhecido.

A perda gera aquele buraco por saber que quem amamos nunca vai voltar ou que o que conquistamos já expirou. Mas não são só os que morrem que partem de nossas vidas. Relacionamentos que acabam, coisas que deixamos de fazer. Lutos que não vivemos. Fins que não aceitamos.

Quando você promete que é pra sempre e entrega todo seu ser para alguém. Quando você gosta muito de fazer algo e precisa parar. Quando você envelhece e é forçado a tomar decisões "adultas". Quando você se acidenta e fica debilitado. Um ciclo que se fecha abruptamente e não existe tem tempo de dizer adeus. Ninguém se prepara para a mudança, ela simplesmente acontece e dói.

Despreparado, você simplesmente não dá valor. Ignora o que está acontecendo. Não se aquieta para chorar a sua dor. Você segue, simplesmente segue porque não foi ALGUÉM que se foi. Algo que fosse físico ou palpável. Porém, o que partiu foi uma parte de você. Uma parte dos seus sonhos, uma parte da sua vida, do seu coração. E como aceitar que tudo acabou ali? Que as promessas, um dia verdadeiras, agora são apenas ecos? Que não há mais vitalidade para manter o que existia, força física para fazer acontecer? 

A gente segue em frente como um trem bala. Não olha para os lados. Só vai parando onde é preciso e pegando passageiros e colocando outros para fora. Mas não há a manutenção. Não há vistoria, não há nada. Você vive um luto sem saber que está vivendo. Os dias se tornam cinzas e nem sabe o porquê. 

Tudo sempre está inacabado e te leva novamente aquela situação de ruptura. Te faz lembrar dos seus dias de glórias. Os dias onde você era um super estudante, o dia você tinha muito vigor, seus dias de atleta, artista ou os dias que você tinha um determinado amor. As pontas soltas sempre voltam, os fiapos começam a soltar. Nunca foi feita uma bainha. A dor nunca foi pranteada com atenção. Não acabou... 

E assim como alguém que não vela um ente querido sempre em a impressão de que ele está apenas viajando e vai voltar, assim somos nós quando não encaramos a realidade e percebemos que a-ca-bou. Nos iludimos. 

Não são só os finados que partem das nossas vidas. Relacionamentos morrem, gostos morrem e outras coisas simplesmente passam. Passam porque a vida continua, porque a gente envelhece, porque a gente muda. E não dá pra viver olhando sempre para trás. Para algo que podia ser vivido (ou revivido) e não foi ou para algo que já passou e não tem mais volta. 

Isso faz pensar que a coisa mais intrigante de falecer é que a vida ironicamente continua. O tempo da nossa vida não para pela nossa dor. E precisamos administrar o fim com um recomeço. Apenas para ter a incrível alegria de sorrir ao invés de chorar com uma lembrança. Ou de chorar um choro de gratidão. "Passou, mas foi tão bom enquanto durou". Ou simplesmente, "graças a D'us, passou".

E é por isso que vivemos o luto. Porque sabemos que precisamos continuar apesar da dificuldade, que precisamos lutar e vencer algo interno. A roupa preta indica uma fase e não uma condição.

A grande dificuldade é que quando se trata de nós mesmos e dos nossos sentimentos (nada físic), geralmente não conseguimos dar esse salto. Não nos enlutamos. Engolimos seco a dor que sentimos, escondemos, colocamos para dentro e fingimos que nada aconteceu. Mas não precisa ser assim...

O luto precisa ser vivido para ser superado. Ele não dura pra sempre, não é inacabado. 
Passa, tudo passa.

E assim como alguém que amamos e que partiu nunca deixará de ocupar um espaço em nós, as coisas que vivemos também não. Mas seguimos em frente sem dor. Uma hora... sem dor. 

No ciclo da vida estão as respostas codificadas para conseguirmos viver (e morrer) em paz. 

Viva o seu luto. Não despreza a sua dor. Chore se for necessário. Pranteie seus assuntos inacabados.
E depois...
VIVA! 



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