Eu nasci como um apêndice, assim como a maioria das pessoas. Ainda não era vista como um sujeito, mas uma extensão perfeita de uma família perfeita.
Não podia e não devia desagradar. "Fale no tom certo, não use palavras sujas, feche a perna, se comporte" foram comandos ouvidos durante toda minha infância e adolescência... Mesmo que dentro de mim haja um rompante que sempre me leva a fazer o que desejo, fui formatada para manter uma família a todo custo. Ninguém me avisou que o preço de ser uma mulher considerada sábia seria morrer por dentro, apesar de eu ter visto todos os exemplos que poderia para entender isso.
E aí eu fui crescendo. Assim como eu, muitas outras mulheres. Mesclando uma alegria única dentro de mim com o sentimento incapacitante de nunca ser querida por quem sou. "Você é demais", "você fala demais", "você expressa suas opiniões demais, os homens vão ficar intimidados", "ninguém gosta de uma mulher que se posiciona assim, você precisa deixar ele pensar que manda", "você é feliz/simpática demais isso pode causar ciúme", "você faz coisas demais, precisa mostrar que ele é prioridade", "se você se focar tanto nas suas coisas ele não vai te querer". Que inferno! Não pode falar, não pode ter opiniões, tem que se moldar o tempo todo para um homem te validar, se não vai ficar sozinha para sempre.
Sabe, depois de uns anos ficar sozinha não é um castigo como colocam na adolescência. Já que o maior castigo, pra mim, é ter que agir como um metamorfo que muda de personalidade e posicionamento a cada novo homem que brotar na minha vida e se tornar relevante.
Se o pai quer uma filha de um jeito: bingo! Nunca questione, honre essa figura independentemente do que ela tenha feito contigo, se torne a filha que ele deseja mesmo que isso não tenha nada a ver contigo. Se o marido quer de outro jeito: ótimo! Saindo do forno uma nova mulher que se molda exatamente ao marido. Assuma seu time, seu posicionamento político (ou faça o favor de não criar conflitos em casa falando o que você acha, mesmo que ele fale abertamente sobre o que pensa), crie vínculos fortes com os familiares dele às vezes maiores do que os dos da sua parentela, fique próxima dos seus amigos e nunca reclame deles; adeque seu jeito ao que ele considera bom em uma mulher não importa quantas vezes você vai se alterar e mutilar para caber nessa versão até que ele se canse e peça uma nova personalidade que contradiga totalmente a anterior. Se ele se apaixonou por uma mulher quieta, depois ele te cobrar para ser uma mulher agitada. Se você é agitada, ele vai fazer de tudo para você se tornar mais quieta e depois vai reclamar exatamente disso.. Se o amigo, o terapeuta, o sogro, o chefe, o pastor ou qualquer outro homem quiserem uma nova versão sua para afagar o ego ou tornar a vida deles melhor: pronto! Você tem que fornecer exatamente o que eles esperam como um espelho que projeta apenas a pessoa que está ali. Se você é uma historiadora, cientista política, mãe, pedagoga ou qualquer tiver qualquer outra profissão, não importa, o que realmente é válido é a capacidade que você tem de usar isso para projetar a grandiosidade desse homem ou fazê-lo se sentir mais inteligente, importante ou um melhor profissional.
Nessa equação, mulher, você nem existe como um ser humano de verdade, mas como um objeto capaz de melhorar por alguns segundos a autoestima deles. A sua única função é de tornar a vida dos homens perto de você mais agradável (para eles). E é por isso que não importa o quanto você precisa mudar de um ambiente para o outro para não parecer chata ou intransigente (porque as suas opiniões e gostos não importam de verdade, só o que pode fornecer a eles uma visão melhor deles mesmos), você ainda não terá feito o bastante.
Cansei desses jogos. Eu não aguento ser alguém pela metade, muito menos ser condicionada por alguém que é uma metade, mas finge ser inteiro. Alguém que não existe por si mesmo e que precisa, constantemente, drenar a energia dos outros para se sentir bem. Quantos homens vi durante meus 29 anos que sugaram a energia de suas filhas, irmãs, mães e, sobretudo, companheiras para se sentirem válidos como "homens"? Quantas vezes vi mulheres considerando as conquistas PESSOAIS de seus maridos (graduação, curso de inglês, um destaque ou promoção no trabalho, um elogio do chefe) como um benefício para toda família, mas poucas vezes vi homens que realmente se orgulhavam das conquistas das esposas e achavam como benéficas a toda família em casos que eles não tinham benefícios muito claros? Ao contrário, geralmente vemos companheiros ressentidos e frustrados consigo mesmo (E com a parceira, chegando a casos de odiá-la) ao verem as companheiras alcançando voos maiores que os seus, pois aparentemente, a função delas em suas vidas é dobrar o tamanho deles e não fazê-los se sentirem minúsculos por não serem o centro do mundo. Sério! Isso não é normal. Não é normal o companheiro, pai, irmão, amigo invejar ou parar de gostar de uma mulher porque ela melhorou, progrediu... Isso deixa claro que para ser uma mulher em uma relação heterocentrada (com homens) é preciso se anular, minguar e diminuir porque a validação da masculinidade deles passam pela nossa invalidação.
Exemplo prático: Os casais e suas relações com o youtube
Quantos youtubers homens vemos integrando suas companheiras em seus canais, tornando-as membros efetivos com participação igualitária ou em destaque sem que haja um outro homem que ocupe exatamente a mesma função que ela, em relação a quantidade de mulheres que, assim que ascendem, além de contratarem os esposos como parte da equipe fixa (o que não é nenhum problema), dão quadros fixos ou uma participação muito relevante no canal? Pouquíssimas vezes vemos as companheiras sendo contratadas para gerenciamento da carreira do homem, enquanto no inverso isso ocorre aos montes. E não é difícil raciocinar que homens não têm, naturalmente, capacidade de gestão financeira e/ou administrativas superior a de mulheres de modo que isso se torne um padrão na plataforma. Em geral, sabemos que os homens namoram ou são casados, as companheiras aparecem em alguns vídeos mas não se tornam co-donas do canal, como acontece muito em canais comandados por mulheres. CLARO que isso não ocorre em TODOS os casos, pois temos canais em que os casais comandam juntos. Me detive, especificamente, a canais que cresceram através das mulheres e os companheiros foram anexados, mas o contrário não aconteceu. Alguns casos beiram a bizarrice de vídeos de desabafo onde o companheiro participa e toma a fala reclamando da participação insatisfatória dos seguidores da mulher (mesmo que o canal não seja dele, mas dela!!!). Coisas como "isso me deixa muito triste porque vocês não valorizam o nosso trabalho!" - Amigo, cai na real, esse canal não é seu. Os seguidores não estão ali por você. Para de marcar território.- Sem exageros, já vi esse tipo de reclamação dos companheiros acontecendo em canais como o da Cool Marina, Mari Cavilha, Taci Alcolea (apesar de ser raro), Vandressa Ribeiro... Agora pare para pensar quantas vezes vocês já viram as namoradas do Felipe Neto, Felipe Castanhari, Casimiro Miguel ou qualquer outro youtuber homem dando essa liberdade para que sua companheira fale num tom que sugira que ela tem condições de cobrar algo no lugar dele?
Enquanto nos canais femininos os homens se expandem a ponto de se sentirem donos igualitários com direito a fala e reclamações, mudando a estrutura do canal que lentamente sai do foco exclusivo na mulher e se torna algo dos dois ou da família, nos canais masculinos elas não passam de apêndices, de modo que a estrutura original não é alterada e tudo permanece a mesma coisa se o relacionamento acaba.
Quantos homens se propõe a aprender coisas com suas companheiras? Aprender de verdade por genuína curiosidade ou por verem nela uma possível mentora? No Brasil, maior parte das pessoas com ensino superior são mulheres, além disso o senso comum diz que mulheres são multitarefas e dão conta de muita carga sozinhas. Não é incomum encontrar mulheres que sejam versadas em mais assuntos que seus companheiros pela prática. Além de estimularem mais o raciocínio para resolverem dilemas do cotidiano como fazer o feijão render, existe mais humildade da parte feminina na aceitação de que lhes falta conhecimento. Raramente ao ser confrontada por um homem ou envergonhada por ele em tom de brincadeira sobre não saber sobre determinado tema essa mulher vai teimar, enquanto um homem com ensino médio pode discutir fervorosamente com uma pós-doutora sobre um tema que ela domina sem se achar errado ou descabido só para provar que sua opinião é mais relevante que dados científicos. Porém, às companheiras é impedido falar disso ou ensiná-los sobre pela sina de serem entendidas enquanto arrogantes ou serem acusadas de "querer ser homem". Mulheres realmente talentosas muitas vezes se privam de falar sobre determinado assunto ou, pior, se fazem de burras para não afastarem ou amedrontarem seus companheiros, fingindo que eles sabem mais de temas os quais não têm conhecimento básico. Enquanto os mesmos não se sentem desconfortáveis em darem "aula" de temas que não dominam, o famoso mainsplaning ou palestrinha. Isso não significa que mulheres são mais inteligentes, no geral, por uma natureza superior tal qual falam dos homens, mas por estarem sempre sendo postas em desvatagem a nível de conhecimento, se esforçam mais para adquirirem os conhecimentos que não tem. Enquanto os homens partem do ponto de que eles já sabem sobre o tema ou que não precisam aprender, pois o seu senso comum sobre o tema bastaria. E quando finalmente se propõe a aprender sobre algum tema, provavelmente irão replicar o conhecimento de outros homens em canais do youtube ou livros ou irão procurar gurus femininas que não sejam suas companheiras por mais integradas que elas sejam no determinado assunto. Muitos são os relatos de homens que invalidam suas companheiras no quesito amamentação, parto, orgasmo feminino como se fizesse algum sentido eles falarem sobre isso. A maioria dos homens, apesar do vício em pornografia, não faz ideia da anatomia feminina e a diferença entre a uretra e o clitóris, não sabem que a genitália da mulher se chama vulva e que a vagina é o canal por onde ocorre o nascimento do bebê e a penetração, ao invés daquela ideia errônea de que tudo se chama vagina. Maior parte não sabe, por exemplo, que são raros os casos de orgasmo vaginal, ou seja, a penetração tão adorada é ineficaz para praticamente todas as mulheres levando a fingimentos durante a relação sexual pois o prazer feminino (inclusive o vaginal) é condicionado ao clitóris (sendo a estimulação controlada quase que exclusivamente pela mulher). Maior parte não vê o seio feminino como uma fonte de alimentação para os bebês e sim para seu prazer sexual, mas se sente no direito de falar como se entendesse algo sobre o tema simplesmente porque acredita que pode falar livremente sobre um tema do qual não entende nada. Esses comentários muitas vezes se restringem o círculo familiar, o que torna difícil que outras pessoas de fora saibam o que está acontecendo, mas basta perguntar...
Cansei de ver que minha vida só tinha valor se e somente se eu validasse a existência de um homem fingindo ser menor do que sou. Não porque eu sou imensa, longe disso, mas porque eu sou real. E pessoas reais não cabem em fantasias. Eu não caibo nas retóricas dos outros, na família perfeita, na atriz pornográfica, na líder religiosa, na paciente ideal para aumentar a autoestima do terapeuta ou da filha maravilhosa. Prefiro pagar o preço de ficar sozinha para sempre do que amargar o sentimento de ter me perdido de mim tentanto ser algo para alguém que não quer me conhecer de verdade e que exige minha automutilação.



Nenhum comentário:
Postar um comentário
Seu comentário é muito bem vindo! Tenha moderação, educação e respeito :) Beijo