20/06/2009
Estou escrevendo esse texto para me lembrar de como tudo aconteceu.
Em seus olhos havia determinação. Eram profundos como se dentro dele estivesse todo o oceano. Era possível se perder ao olhá-los por algum tempo. Nunca senti algo igual. Na verdade, estava perdido. Perdidamente apaixonado por alguém que nem conhecia.
Tudo isso aconteceu numa tarde de verão. Parei numa sorveteria para aliviar todo calor, pedi uma casquinha e enquanto virava lentamente para finalmente me refrescar fui surpreendido por uma trombada tão abrupta que me fez derrubar o sorvete. "Que droga, meus dois reais"- Pensei. Nada me ocupava tanto os pensamentos naquela época. Aliás, para um mero estudante que fazia bicos aqui e ali, qualquer dinheiro era correspondente a um salário mínimo.
Mas depois do susto inicial, de um tapa bem dado nas minhas coxas, olhei pra cima para ver quem tinha me dado tanto desprazer em apenas 3 segundos. Um desculpe sussurrado e apressado saiu, cabelos negros presos em um rabo de cavalo e a moça mais jovial que já vi. Digo jovial por ela apresentar vida no que era. Estava descabelada, sem maquiagem e muito normal, por sinal, mas me hipnotizou. Não tive o prazer de perguntar seu nome, whatsapp e nem a coragem que se vê em filmes onde o mocinho sai correndo para falar com mulher de sua vida. Apenas fiquei parado, atônito, num misto de raiva (pelo sorvete/dinheiro) e agonia por ser desvestido por uma pessoa que nunca vi apenas com os olhos. Era como se ela tivesse visto a minha alma e eu acreditei nisso.
Aquilo ficou na minha cabeça. Me senti como um adolescente de 15 anos em sua primeira grande paixão. Confesso que fui atrás dela nas redes sociais. Tentando encontrar algum amigo incomum, procurando por nomes femininos aleatórios na busca de encontrá-la. Seria Bruna, Ana, Bia? Qual era o nome? Mas não consegui nada. Estava ficando pirado, dedicando alguns bons minutos nessa busca . Então pensei melhor e deixei para lá. Não ia ser o maluco que fica correndo atrás de alguém que nem sabe o nome, por mais que eu quisesse isso.
Com o tempo aquilo foi diminuindo e a paixão assim como vem, vai. Era isso que eu ingenuamente achava. Mas assim que suas características irrompiam a minha frente uma pequena esperança renascia. Dois anos se passaram e a vida seguiu. Não havia mais moça do sorvete, nem nada. Eu já estava com meus quase 25 anos e tinha decidido deixar toda molecagem para trás. Era hora de crescer.
Um recém-formado com emprego medíocre tinha nascido. Me sentia como um homem convicto dos meus sentimentos, firme. Não queria mais sair tanto com os amigos para focar na carreira, escrever meus artigos e fazer leituras. Como a faculdade não foi pesada, não me custou muito continuar no ritmo. Mas um dia conseguiram meu arrastar para um happy hour. Entrei pela porta como um velho ranzinza. A música razoavelmente alta me incomodava, tantas pessoas aparentemente felizes e eu, que só queria ir pra casa. A curtição irrompeu a noite. O cara trincado se soltou e no fim já estava conversando tranquilamente com a galera. Era bom "voltar" a ser jovem.
Olhei para o lado e vi a mesma silhueta pela milionésima vez. Mas eu já tinha imaginado tanto que, para mim, era só mais uma das minhas visões. E a silhueta deixou de ser uma sombra e se tornou uma pessoa de carne e osso andando em minha direção. Meu coração acelerou tanto que mal podia acreditar. Vi novamente os olhos mais penetrantes do mundo. Ela abaixou o tronco e deu um beijo do rosto do meu amigo. E eu estava ali, parado, vendo tudo acontecer. Olhou pra mim e sorriu e logo me foi apresentada.
Todo meu drama adolescente voltou. Ela estava ao meu lado, mas não estava comigo. Tentei saber tudo a seu respeito em pouquíssimo tempo, mas ela não estava sintonizada. Ela precisava estar. Sofri esperando esse momento por tanto tempo. E foi quando lancei "sabia que te conhecia em algum lugar". Ela me olhou e sorriu. Parecia que ela só sabia fazer isso: Sorrir, olhar e deixar tudo mais confuso. Respondeu: é? E de onde o senhor me conhece?"- sorrindo enquanto falava. Não me levava muito a sério, eu sabia. E eu não consegui responder. Seria muito estranho falar de uma situação extremamente corriqueira ocorrida há mais de dois anos. Ela se dispersou e por mais que eu estivesse na cola, não dava pra mantê-la presa a mim. Aliás, não consegui manter um assunto descente por muito tempo por causa do nervoso. Fomos embora com um aceno, mas consegui saber seu nome, pelo menos.
Na semana seguinte, estava lá novamente. Como poderia evitar a possibilidade de vê-la novamente? Dessa vez eu estava menos idiota. Rimos juntos, conversamos e eu mencionei o fato dos seus olhos serem tão penetrantes que pareciam uma grande bola de cristal capaz de revelar tudo de nós mesmos. Novamente ela sorriu. Não conseguia entender nada daquilo que eu queria dizer. Aliás, pense só, para ela eram apenas os olhos que ela sempre teve. Meu coração ardia. Tinha a sensação de que vomitaria a cada vez que ela tocava nos meus ombros no meio da conversa. A coisa mais irritante do mundo, mas que ficava muito conveniente nela.
As horas passavam e eu estava lá do lado de quem eu esperei estar por tanto tempo. Ela era maravilhosa. Sua doce voz, sua risada, sua presença. Nos vimos por semanas. Finalmente eu a cativara. Ligações, whatsapps, mensagens na madrugada. Me divertia em falar como ela era radiante, como vibrava energia e força, como ao lado dela ficávamos felizes. Passei semanas falando essas coisas a ela, e toda vez que falava era surpreendido com um enorme sorriso e um abraço. Era bom vê-la feliz, apesar de que, no meu ver, aquilo devia ser totalmente comum a ela.
Passada alguns meses de amizade, tomei coragem para dizer tudo o que tinha acontecido. Fui um tolo, aliás, porque essa história é ridiculamente estranha. Mas falei tudo. Ela me olhou, franziu as sobrancelhas e disse: sério? Sorriu com a história e arrebatou meu coração novamente. Cada vez que ela piscava e me olhava, seus olhos capturavam os meus. Brincando, tirou da carteira dois reais para pagar os danos causados pela trombada, o que prontamente recusei em meio a risos amarelados. Ela olhou mais uma vez nos meus olhos, mas agora com muita intenção, segurou nas minhas mãos e sorriu. O que ela queria dizer com isso? Ela sentia a mesma coisa que eu? Ela gostava de mim também?
- Gab - ela disse-, nunca pensei em ti assim. Nem sabia que o que tu queria comigo era algo além da amizade. Na real, achava que tu era gay.
- Gay? Como assim? Não! - esbravejei.
- Me desculpe, eu realmente não imaginava. Você se importa tanto em ser sensível que achei que isso tivesse a ver com sua opção sexual. Me desculpe, não queria te ofender. Achava que você era discreto quanto a isso. Por outro lado, nunca te vi com ninguém.
Fiquei com cara de capivara. Um vácuo eterno dentro do meu peito. Como assim ela não sabia que eu gostava dela? Não fazia sentido. Como assim gay? Ficamos em silêncio por um tempo. Ela sorriu novamente e disse que precisava ir. Mas antes de sair, disse que assim como eu gostava dos olhos dela, ela gostava do meu sorriso e por isso, ela sorria tanto perto de mim. Respondi que não gostava apenas dos olhos dela, mas que o olhar dela fazia eu me sentir eu mesmo.
Foi embora e fiquei sem saber se ela voltaria ou se falaria comigo novamente. Apesar da situação estranhíssima e dela não entender absolutamente nada sobre um cara ser gentil, finalmente aquela obsessão tinha finalmente saído, o nó na garganta sumido. E apesar de me sentir um estúpido, me sentia mais tranquilo do que antes. Até que o celular vibrou. Seria ela? Corri, mas era apenas a operadora me mandando recarregar o celular. Fui dormir pensando nisso, pensando em como podia ter falado tudo isso antes e me livraria desse tormento ou não. Mas pelo menos saberia antes que todas as minhas investidas tinham sido inúteis. Nessa mesma noite sonhei com ela me dizendo que não dava para ter nada entre nós. Indo embora com aquele sorriso lindo e cabelos esvoaçantes, seu jeito perfeitamente normal, mas com algo especial que lhe conferia singularidade. Assim do nada. Me dando um toco e eu bobo achando tudo lindo. Por mais que não fosse o que eu queria, acordei bem. Deixei esse lance de ser gay para lá, aliás, apesar de não ser legal ter a sexualidade questionada, hoje em dia isso é absolutamente cabível. Então não carecia de drama.
As semanas seguiram normais. Não nos vimos, não nos falamos e eu estava bem - pelo menos sem peso- até que recebi uma mensagem: Gab, eu esbarrei em você sem querer duas vezes e você esbarrou por querer muitas vezes mais. Nunca tinha pensado em ti com amor, mas aquela conversa me fez pensar. Queria conversar, topa?
Meu coração gelou, fiquei paralisado e cheio de vontade de fazer algo. Respondi prontamente que na sexta, conforme fazíamos nos happy hour da vida, era o melhor dia (por causa das movimentações do trabalho). Hoje é terça-feira, estou ansioso, estou feliz, estou sentindo que algo pode finalmente acontecer depois de tanto tempo. Os olhos deram me desnudaram uma vez ou fui que consegui vê-la por dentro?
* Atualização 23/06/2009
No nosso lanche (claro que fomos de Mc Donald's, pois um jantar em restaurante ficaria muito matrimonial), cheguei adiantado. Nervoso e temendo que ela falasse poucas e boas para mim. Ou pelo menos, me dando um toco sem dó nem piedade. Eu não queria isso, mas precisava estar pronto. Ela chegou com 15 minutos de atraso. Entrou rápido pela porta, olhou em volta e logo sentou. Com um jeans despojado, tênis, uma blusa da Minnie começou a falar sem parar sobre seu dia. Eu só conseguia olhar para os olhos dela.
Confesso que já estava agoniado pois ela não parava de falar algo do trabalho e disse: - você quer mesmo falar algo além disso comigo? E sorri. .
Ela ficou encabulada, mexeu no cabelo e me jogou no chão apenas com esse movimento. Filosoficamente falando, claro. "Queria disfarçar. Estou nervosa"- disse ela. "Mas se você quer que eu fale, ok, eu falo.".
E eu paradão olhando. Provavelmente com cara de bobo.
- Eu nunca fui tratada como você me tratava. A forma como você falava sobre eu ter uma beleza interior me trazia vida e eu realmente ficava muito feliz com isso. Pra mim, isso era amizade. Mas se você estava interessado em mim há tanto tempo porque não investiu logo ao invés de tanto rodeio? Disse ela.
- Eu estava investindo no início. Retruquei. Mas se tornou tão prazeroso ver sua reação cada vez que eu falava isso, que era como seu eu estivesse fazendo recebendo um elogio de tão satisfeito que eu ficava.
- Pra mim, você era um cara reservado quanto a sua vida. E se estava ao meu lado a tanto tempo, falando tantas coisas legais e não demonstrava algum interesse sexual como a maioria dos caras, isso te fazia gay. Desculpa, mas só conheci babacas. Depois do que você falou, pude pensar em você e ver coisas que não me permitia antes.
O papo durou mais algumas horas, rimos e conversamos bastante. Se ficamos juntos? Bem, só posso dizer que naquela noite conheci ela verdadeiramente e não sei que vai durar, mas que está sendo maravilhoso esse primeiro dia oficialmente juntos.



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