Há cerca
de 145 000 anos, uma espécie recém-formada de primata começou a proliferar na
região central da África. Seus representantes eram poucos – uns 2 000
indivíduos. Se uma catástrofe natural tivesse ocorrido naquele momento, é provável
que toda a espécie, o Homo sapiens, tivesse desaparecido. Hoje, na
melhor das hipóteses, haveria um neandertal lendo esta revista no seu lugar.
Como você
bem pode testemunhar, a espécie não sumiu. Mas, daquele grupo primordial,
apenas uma mulher deixou uma linhagem duradoura de descendentes. Os cientistas
batizaram-na de “Eva”. Não sem razão. Todas as populações atuais, dos
sul-africanos aos índios da Patagônia, evoluíram dela.
Analisando
o DNA desses povos, hoje os
pesquisadores tentam reconstruir a árvore genealógica dos descendentes de
“Eva”. Eles descobriram que ela deixou dezoito filhas, que saíram da África
para colonizar o mundo e geraram os nossos grandes troncos populacionais.
Somos, portanto, os descendentes das dezoito filhas de Eva.
Agora, o
geneticista americano Peter Underhill, da Universidade Stanford, está atrás do
resto da família. Pesquisando o cromossomo Y, um pedaço do material genético
transmitido apenas do pai para os descendentes homens, ele acredita haver chegado ao Adão primordial – que pode não ter
sido o marido de Eva, mas foi o homem cujas linhagens geraram as nossas. Ele
teria deixado dez ramos principais de herdeiros. “Os dados de Underhill são
animadores, porque mostram que Adão viveu numa época próxima à de Eva”, diz um
dos descobridores da primeira mulher, Mark Stoneking, do Instituto Max Planck
de Antropologia Evolutiva, na Alemanha. Ambos talvez tenham vivido no mesmo
bando. Podem, até, ter tido filhos. Mas a Genética não é capaz de cruzar
as informações do DNA mitocondrial com as do
cromossomo Y e comprovar a existência de linhagens comuns aos dois. Mesmo
porque talvez nem tenha rolado nada.
Os
estudos do americano, ainda inéditos, são apresentados pelo italiano Luca
Cavalli-Sforza, diretor do laboratório onde Underhill trabalha, na Universidade
Stanford, no livro Genes, Peoples and Languages (Genes, Povos e Línguas),
recém-lançado nos Estados Unidos. Ele também confirma a hipótese, proposta por
vários cientistas, de que os seres humanos migraram primeiro para o sudeste da
Ásia e para a Oceania cerca de 60 000 anos atrás, antes de chegar à Europa.
Pré-História em tubos de ensaio
Um dos
melhores documentos para o estudo da evolução e da Pré-História humana não está enterrado em uma
caverna remota no Oriente Médio. É muito fácil de estudar. Todos temos um
monte dele, arrumado em pacotes dentro das células. Ali, no código genético,
está o registro de tudo o que aconteceu com a humanidade desde 5 milhões de
anos atrás, quando os hominídeos se separaram dos chimpanzés. “Podemos fazer
História sem precisar recorrer a ossos velhos ou arquivos poeirentos”, brinca
Francisco Salzano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o maior
especialista em genética de índios brasileiros.
Esse
registro vivo se acumula em forma de mutações, nome dado a qualquer mudança em
uma determinada seqüência de DNA. Quando um grupo humano se
divide e migra para outro ambiente, o código genético de seus membros também
acumula mutações distintas. Dentro de um certo espaço de tempo – normalmente
alguns milhares de anos – eles geram populações novas. “Conseguimos saber que o
homem surgiu na África porque em nenhum outro continente a diversidade
genética, ou o número de mutações, é tão grande”, explica o biólogo
Marcelo Briones, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Os
cientistas descobrem essa história contando o número de mutações em dois
pedacinhos de DNA. Um deles é o DNA da mitocôndria, a parte da
célula responsável pela produção de energia, que, localizada fora do seu
núcleo, escapa à mistura de genes do pai e da mãe durante a fecundação. O outro, o cromossomo Y, exclusivamente masculino, também passa
ileso pelo embaralhamento genético porque não tem par feminino com o qual se
misturar. Cada povo porta o conjunto de mutações que o caracteriza nessas duas
fitas de DNA, como se fossem etiquetas
genéticas. Há dois tipos de “etiquetas”: o haplótipo, constituído por apenas um
gene característico, e o haplogrupo, formado por um conjunto de genes.
Questão
de fé
A
presença de um haplogrupo de uma população em outra pode resolver
até questões religiosas. Foi o que aconteceu com a tribo sul-africana dos
lembas. Eles não comem carne de porco, fazem circuncisão no pênis e afirmam,
recorrendo à sua mitologia, descender de judeus. Olhando para eles, que são
todos negros, ninguém diria. Mas uma análise de DNA feita em 1999 mostrou que os
lembas têm um haplótipo característico dos cohanin, um dos ramos genéticos do
povo judeu. O ancestral comum, de acordo com os cientistas, viveu entre 2 600 e
3 000 anos atrás.
DNA ajuda a datar migrações
A época
de partida da África dos Homo sapiens também pode ser confirmada pelo DNA. A genética é mais
eficiente do que a datação por carbono-14, porque consegue descrever
acontecimentos anteriores a 40 000 anos. Daí para trás, o carbono radioativo
deixa de ser preciso.
No caso
dessa grande migração, os cientistas analisaram a distância genética entre os
continentes, ou seja, o número de mutações que separam africanos de asiáticos e
estes últimos dos australianos, europeus e americanos. Essas distâncias
coincidem, mais ou menos, com as datas estabelecidas pelos arqueólogos com base
no estudo de fósseis: há 100 000 anos da África para a Ásia; há 55 000 anos da
África para a Oceania; e há 40 000 da África para a Europa.
Uma
dessas datações, no entanto, continua imprecisa, a da chegada à América. “Não
há consenso entre os arqueólogos sobre quando isso aconteceu”, afirma Luca
Cavalli-Sforza. Até há pouco, supunha-se que não poderiam ter chegado
antes de 15 000 anos atrás – os artefatos humanos mais velhos encontrados
até então, no sul dos Estados Unidos, tinham 11 500 anos. Com a descoberta
de um acampamento indígena de 12 500 anos em Monte Verde, no sul do Chile , essa data começou a recuar. Hoje, já se admite uma
data há cerca de 20 000 anos para a chegada à América. Apesar da controvérsia,
os geneticistas estabeleceram outra: 32 000 anos, no mínimo. O cálculo foi
feito por Cavalli-Sforza tomando por base o número de mutações em vários genes
que separam asiáticos de ameríndios. “A Genética é um meio mais
sofisticado de estudar a História e a evolução, porque consegue descrever um
processo em detalhes”, afirma Marcelo Briones, da Unifesp.
Passado recente
Um
exemplo dessa minúcia é a expansão da agricultura na Europa. Há muito se
sabia que o hábito de cultivar plantas surgiu no Oriente Médio há 10 000 anos e
se espalhou pela Europa nos milênios seguintes. Mas ignorava-se como isso tinha
acontecido. Os antigos europeus aprenderam a plantar com os vizinhos ou foram
invadidos por eles?
A
resposta estava no sangue. Mais exatamente, no gene que controla a produção de
uma determinada proteína do sangue – o fator Rh. Nos países do Oriente Médio,
todo mundo é Rh-positivo, ou seja, todos possuem o gene que carrega a
receita para fazer aquela proteína. Na Europa, a freqüência desse gene cai numa
proporção constante quando se vai dos Bálcãs para a Escandinávia. Ou seja, os
agricultores foram invasores que avançaram do sudeste para o noroeste.
“É como se, um dia, toda a Europa tivesse sido Rh-negativa”, escreve
Cavalli-Sforza em seu novo livro.
Trabalhando
juntas, a Genética e a Arqueologia concluíram que a revolução agrícola se
espalhou pela Europa em migrações sucessivas vindas do Oriente Médio. Aliadas,
as duas ciências estão acabando com os mistérios da nossa Pré-História. Não vai ficar osso sobre osso.
Algo mais
O grupo
humano contemporâneo cujo DNA se assemelha mais ao de Eva e Adão são os bosquímanos da África do Sul e Botsuana,
pertencentes ao grupo lingüístico khoisan.
Eles não se misturam
Partes do DNA da mãe e do pai passam intactos de
geração a geração.
1. Como
qualquer célula, o óvulo humano tem milhares de mitocôndrias. Esses órgãos são
as fábricas de energia da célula e carregam o seu próprio DNA.
2. Quando
o óvulo é fecundado, o DNA mitocondrial escapa à mistura
dos genes do pai e da mãe. É por isso que ele será sempre exatamente igual
ao da sua mãe, a menos que ocorra uma mutação.
3. O
cromossomo Y é que define o sexo masculino. Ele é transmitido do pai
para os filhos homens e também fica de fora do troca-troca genético na
fecundação. Todo homem tem o cromossomo Y exatamente igual ao do pai.
O grande êxodo
Seqüências de DNA são o passaporte das migrações
dos filhos de Eva e Adão.
Conflito
Acredita-se
que uma primeira tentativa de migração da nossa espécie para a Europa tenha
acontecido há 100 000 anos. Mas a viagem parou em Israel. Os cientistas acham
que a culpa foi do frio que fazia lá, na época, pois a região estava saindo de
uma glaciação. Pode também ter havido um conflito com os neandertais, que já
ocupavam o lugar. Ou as duas coisas. O Velho Continente só seria tomado de vez
pelos descendentes de Eva há 40 000 anos.
O berço
Foi na
África que a humanidade surgiu. A prova está na diversidade genética do
continente, muito maior que em qualquer outro lugar do planeta – sinal da
longevidade da evolução. Um queniano e um nigeriano têm menos genes em comum
que um italiano e um tibetano. Comparando o DNA mitocondrial dos africanos com o
de outras populações atuais, os pesquisadores encontraram um número muito maior
de mutações. Isso significa que os humanos estão por lá há mais tempo.
De
barquinho
A Ásia
começou a ser povoada há 60 000 anos, segundo os estudos mais recentes. Para lá
migraram, via Etiópia, uma filha de Eva, que deu origem a seis linhagens
asiáticas, e um filho de Adão, de quem descenderam sete linhagens. Para o
geneticista italiano Luca Cavalli-Sforza, é possível que a migração
até o sudeste asiático tenha sido feita com a ajuda de barcos.
Eva
Nascida
provavelmente entre 150 000 e 200 000 anos atrás, ela é o elo comum entre
o DNA mitocondrial de todos os seres
humanos modernos. Deu origem a três grandes troncos genéticos. Dois deles
ficaram na África e um migrou para a Ásia, onde se ramificou para outros
continentes.
Adão
Considerado
o cromossomo Y fundador da espécie. Os estudos até agora indicam apenas
que ele pode ter sido contemporâneo de Eva e originado três grandes linhagens.
Uma delas migrou para fora da África e espalhou-se pelo mundo.
Aparências
enganam
Não se
deixe levar pela cor da pele. Aborígines australianos estão mais próximos
geneticamente de indianos e chineses do que de africanos nativos. A Oceania foi
ocupada pelos descendentes de Eva entre 50 000 e 40 000 anos atrás. A cor
escura provavelmente é uma coincidência evolutiva.
Destino final
Data de chegada à América ainda é imprecisa.
Adão
siberiano
Somente
uma linhagem dos dez filhos de Adão veio para a América e sobreviveu nas
populações indígenas americanas. O primeiro cromossomo Y do continente
provavelmente veio da região do Rio Ienissei, na Sibéria, há 40 000 anos. Ele
é compartilhado por 90% dos índios americanos.
O
verdadeiro descobrimento
Segundo a
genética, a povoação da América começou há 32 0000 anos.
Evas
americanas
O
continente americano foi povoado por pelo menos quatro das dezoito linhagens de
Eva. Elas deram origem aos três principais grupos lingüísticos do continente: o
na-dene (falado no Canadá e nos Estados Unidos), o ameríndio (a suposta língua
original de todos os nativos sul-americanos) e o esquimó-aleuta, que sobrevive
no Ártico, falado pelos esquimós. Duas linhagens podem ter convergido para um
mesmo tronco lingüístico.
Genes X
ossos
Até recentemente,
os arqueólogos torciam o nariz para qualquer um que ousasse afirmar que o homem
teria chegado à América há mais de 15 000 anos. Os genes fizeram essa data
recuar para, no mínimo, 32 000 anos. No entanto, os vestígios arqueológicos
mais velhos aceitos pela comunidade científica têm 12 500 anos. Foram
encontrados no sul do Chile.
Elo
perdido
O
antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, propôs a hipótese de
ter existido uma corrente migratória anterior à asiática, formada por povos
diferentes dos asiáticos. O crânio de Luzia, o mais antigo vestígio humano das
Américas até agora, não deixa dúvidas quanto a essa diferença – ele
é claramente negróide, como o dos australianos. Mas o seu DNA, em péssimas condições, ainda
não pôde ser estudado.
Parentes no museu
Como você
se sentiria tendo um esqueleto de 9 000 anos como parente? O inglês Adrian
Targett, um professor escolar de 45 anos, está orgulhoso. Ele virou celebridade
na cidadezinha de Cheddar Gorge, a oeste de Londres, depois que um teste de DNA revelou que era descendente
direto do homem de Cheddar, um fóssil humano tido como o primeiro habitante
daquela região. A notícia chocou-o.
“Só me
submeti ao exame para mostrar aos alunos como recolher células para exame
genético. Não sabia nada sobre esse meu ancestral”, contou Targett, depois que
descobriu o parentesco.
Um
morador da vila de Cabanaconde, no Peru, também poderia visitar a família num
museu. Um teste de DNA mitocondrial mostrou que alguém
da aldeia era parente de uma múmia inca de 500 anos – uma jovem nobre
descoberta em 1999 no alto de um vulcão na Argentina. “Ambos tiveram um
ancestral comum há 600 anos”, garante o geneticista Keith McKenney, da
Universidade George Mason, nos Estados Unidos, que analisou milhares de células
de peruanos anônimos. O descendente de Cabanaconde não foi identificado e
desconhece seu parentesco imperial.
Pé na taba
O
geneticista mineiro Sérgio Danilo Pena sempre achou que descendesse de judeus
belgas. Como você pode ver pela foto ao lado, ele é o tipo de sujeito que
não teria dúvidas ao se declarar “branco” no censo do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE). Em 1996, no entanto, Pena descobriu que sua
trisavó de judia não tinha nada. “Ela era índia”, conta.
A
revelação veio de um exame de DNA mitocondrial. O cientista e sua
equipe, do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais,
foram encarregados de descobrir se os fósseis de homens pré-históricos da
região de Lagoa Santa, também em Minas Gerais, tinham genes negróides ou não.
“Para evitar a contaminação das amostras de DNA dos fósseis com uma transmissão
acidental de células dos pesquisadores, fizemos a análise genética de todos no
laboratório”, lembra-se. “Descobrimos que todo mundo tinha um ancestral índio
por parte de mãe. Inclusive eu.”
Daí
surgiu a idéia de verificar se aquela era uma tendência geral na população
brasileira. Os pesquisadores, então, colheram amostras de DNA mitocondrial de 47 mulheres e
200 homens “brancos” segundo as estatísticas. Não deu outra: 33% dos
pesquisados tinham haplogrupos – “etiquetas” genéticas – de ameríndios e 28% de
africanos. Ou seja, 61% dos brancos brasileiros têm um ancestral negro ou índio
por parte de mãe. Por outro lado, o estudo do cromossomo Y dos brancos mostrou
que 90% das linhagens masculinas são mesmo européias. A família de Sérgio Pena
confirma a regra. O tal judeu belga era o trisavô do cientista – o marido da
índia.






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