Uma flor foi aos poucos desabrochando, mostrando sua glória ao mundo. Ela não possuía escolha, senão nascer. Cada pétala se levanta lentamente, uma de cada vez, anunciando sua maioridade, sua maturidade. Suas partes, agora formadas e longilíneas estão prontas para reprodução. Um cheiro adocicado transparece e é levado pelo vento do campo até a cidade. Tal odor atravessa carros e suas buzinas, arranha-céus, esbraveja perante fumaças e as empurra. Entra por janelas impetuosamente e vai atingindo pessoas. Contagiando todos aqueles que estão livres para os ensaios da natureza. O cheiro entra pelas narinas e ativa tudo o que há de melhor em cada um, os faz perseguir cada um em seu tempo, tal maravilhosa fragrância. E não são poucos os que se reúnem ante ela para admirá-la.
Tal beleza, penso eu, nunca foi vista. Tal fragrância nunca encontrada. A natureza espantou-se com o despertar da flor, antes tão singela e meiga, agora tão potente tão viva, sagaz. Os admiradores lutavam para tomá-la para si, cada um argumentando a seu próprio favor. Como a flor tinha raízes firmes não foi arrancada, porém com o tumulto uma de suas pétalas foi puxada e ficou com seqüelas. Com o tempo, todos se dispersaram, a não ser um admirador que esperando todos os outros partirem, dela cuidou.
A flor se recuperou, cresceu, floresceu em glória como antes. Mas perdeu seu brilho, seu tão glorioso brilho foi perdido para todos que brutalmente quiseram-na para si. O admirador não percebeu que algo tinha mudado, lembrou-se de tudo, mas esqueceu-se de recuperar a essência da bela. Ela era visitada tratada e cuidada todos os dias, mesmo assim observava o crescimento das outras flores na sua idade e não se sentia especial. Todos quantos passavam pelas terras onde estava iam visitá-la, contemplá-la, porém, nada disso bastava.
Seu tratador comentou a beleza de outras flores e o cheiro agradável que também possuíam e ela ouviu, outrora sem a pétala que significava seu brilho, sentia-se inferior às outras e lamentava, tentou se reanimar, esforçou-se mas nada mudou. A situação não melhorava, pois ninguém reparava o estado em que a bela se encontrava e com isso ela foi morrendo por dentro. Morrendo. Até que um dia, realmente morreu.
A bela não foi sepultada em sua glória, foi morta pela vida e pelos desejos de todos por ela. Perdeu seu vigor em uma disputa, sua alegria foi roubada ao cair de uma pétala, que outrora significava sua liberdade. Até hoje, não entendem sua morte, pobres mortais, acostumados com flores que apenas mostravam beleza, indagam seu excelente tratamento e os cuidados, não vêem que isso não era suficiente para uma flor como aquela, que era diferente. Não entendem que é impossível tornar simples algo feito em glória.
(Rio, 30/04/12)



Um comentário:
Fantástico!!!
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