Sentir meu corpo leve e logo após vê-lo contraído, retraído, em um tempo de oito fazer uma sequência com meu pés. Sentir meus dedos arrastarem no chão e em menos de dois segundo, voar. Ser dona de mim mesmo, do meu corpo, dos meus sentimentos. E expor tudo isso em pequenos movimentos, ora suaves ora intensos. Isso é dança.
Ela não para dentro de nós, acordamos e nossos olhos piscam em um movimento uniforme de subir e abaixar pálpebras, ele dança. Ficamos de pé e nossas pernas e braços vão pra trás e pra frente, eles dançam. Movimentamos nossas mãos para cozinhar, escrever, coçar a cabeça, atender telefone, digitar, nossos pés estalam, nossos dedos se mechem, levantam e se arrastam, eles dançam. O ar que adentra em nossos corpos e o percorre, acha seu destino em movimentos intensos, ele dança. O sangue que coagula dentro de nossas veias, atravessa nosso corpo em tão pouco tempo, entra e sai de compartimentos, ele dança. A vida é dança.
Meus simples movimentos vão ao chão, sentando gloriosos como borboletas que batem suas asas até chegarem sublimes ao céus. Descendo humildemente à cabeça aos pés, depois descansando o tronco lentamente sobre as coxas. Lado por lado, depois ao chão. Os suspiros e a respiração ofegantes dão lugar a dor por um tempo, até que a forma gloriosa refletida pelo espelho é contemplada, a forma da superação. Pouco a pouco as barreiras são vencidas, a dor é dominada, os músculos doutrinados. Toda a sequência faz sentido diante de uma diagonal, é hora do show, braços e pernas agora não mais enrijecidos tomam sentido, o equilíbrio e a concentração são seus melhores amigos. A força de conseguir vencer os obstáculos é dança.
Outrora frágeis e temerosos agora sublimes e gloriosos são os olhares de vencedoras, nenhum fio fora do lugar, brincos pequenos, maquiagens calmas, colunas eretas, postura de rainhas. Rainhas que a vida ensina a ter compostura, olhares por cima dos ombros, alinhadas e quietas que vão ganhando forma ao som da música calma ou agitada. Compasso, erros, gritos de uma professora que pede sincronia, medo de errar novamente. Somos dominadas pela vontade de acertar, queremos logo receber um elogio e erramos por ansiedade. E isso se estende por longos momentos até a expressão nos invade, a música faz sentido e tudo agora passa a valer a pena. Os movimentos não mais mortos nos dão vida, entranhada em nós a história.
Saber que preciso melhorar só me anima, voltar depois de um ano e meio parada me dá alegria. Todas as menninas mais novas já integradas, alongadas como mulheres elásticas não me diminuem mais, me dão garra e certeza de que talento é muito mais do que técnica. Toda energia sendo canalizada para poucos cinco minutos de glória e a tensão dos ensaios, a expectativa de ver um palco cheio de pessoas me olhando, esperando ver a música ser contextualizada apenas para liberar tudo de mim. A melhor parte de mim expresso com a arte, e uma delas se resume em dança.



Um comentário:
pooo...mó bem escrito...show
Postar um comentário
Seu comentário é muito bem vindo! Tenha moderação, educação e respeito :) Beijo