Você passou anos da sua vida realizando estudos e pesquisas em um laboratório. Dedicou muito de si e realmente teve muito gosto no que fazia, apesar da exaustão. Quando o resultado da pesquisa finalmente pôde ser apurado e divulgado, recebeu glórias e louvores da comunidade científica. Não só pessoas do seu meio te elogiaram muito pela competência pessoal e profissional, como pessoas de outras áreas souberam quem você era e atribuíram diversas honrarias aos resultados do seu trabalho. Aliás, não era pouco encontrar o ponto exato para um medicamento que ajudaria vidas. Isso te deu, além de alegria pessoal, um reconhecimento que lhe fez gostar ainda mais de si. Todo o investimento de anos valeu a pena.
Anos depois (talvez décadas), ao iniciar novos estudos e pesquisas com outro objetivo mas elementos parecidos, você percebeu que os dados coletados em sua primeira pesquisa ignoraram um aspecto essencial e básico. Sendo assim, mesmo que o resultado parecesse ilustre e tivesse rendido muitos bons frutos, na verdade, ele era insuficiente e provavelmente prejudicial a muitas pessoas em condições de vida que não foram nem consideradas de primeira. Ficou evidente, quando comparado com novas evidências, que sua primeira pesquisa estava viciada e, portanto, tudo o que foi considerado como "efeito colateral desviante", na verdade, eram só os padrões sendo observados por uma ótica mais ampla. Dessa forma, o trabalho anterior estava obsoleto. Porém, os resultados do segundo trabalho foram mais completos, variados e com elementos que, por situação da vida, expunham os erros do primeiro trabalho.
Assim, você ficou em uma sinuca de bico. Por mais que a vida seja como a ciência, nem um pouco estática e sempre pode ser refutada, em sua vaidade como cientista você não queria que tivesse dado errado (ou sido descoberto). E por mais que o erro possa ser por motivos diferentes, isso não muda o resultado deles: pessoas inocentes foram prejudicadas por um erro de cálculo mal feito ou por maldade.
Consideremos 3 situações sobre a primeira pesquisa:
1) Você não sabia sobre a insuficiência da pesquisa e, portanto, errou por inocência.
2) Você percebeu alguma coisa errada no meio do caminho, mas ficou com medo de conferir e perder o trabalho de anos, então só ignorou. Errando, principalmente, por negligência.
3) Você sabia o que estava errado e tinha que ser mudado, mas preferiu continuar porque sabia os ganhos que teria. Errando por egoísmo.
A situação é difícil por si só, pois não foi o outro que revelou sua falha, mas você que teve que encarar aquela névoa que já te perseguia e causava desconforto mesmo que você não soubesse o porquê. Nunca é sobre o outro, mas por suas próprias ações que o erro apareceu. A segunda pesquisa desnudou as falhas da primeira e isso sempre gera uma espécie de luto pelo que se imaginou de si (pois recebeu muitas honrarias) e pelo que se perdeu (o prestígio dos pares e de si mesmo). É amargo, triste e não muda a gravidade só porque não queríamos que alguém saísse ferido. Talvez a maior dificuldade seja lidar com sua própria imagem refletida no espelho (juntando erros e acertos), ver duas certezas indo embora sobre determinado assunto e ter que recomeçar. É preciso viver o luto de si, mas também é preciso escolher.
Agora restam 2 opções:
1) Omitir: Nesse caso, você vai tentar ignorar a todo custo os resultados de suas ações, impedindo-se de melhorar e prejudicando terceiros inocentes. Porém, mantendo-se bem posicionado dentro de um status pessoal e público. É possível que isso vire uma bola de neve e você se sinta mal por um lado, mas se mantenha firme nessa narrativa porque não quer abrir mão da narrativa criada para si.
2) Revelar: Aqui será preciso primeiramente assumir para si mesmo suas falhas e aceitar que errou. Despir-se da vaidade do super-homem e aceitar que não é possível se apegar a essas coisas sem sofrer. Depois, publicar o novo estudo. Isso significa admitir publicamente que errou, o que poderá implicar no desprestígio de sua trajetória e trabalho, silêncio dos pares (oa admiradores podem sumir) e dúvidas quanto a sua nova pesquisa. Ao mesmo tempo, isso pode ter o efeito contrário e sua postura aumentar sua credibilidade já que, mesmo com as possíveis intercorrências, você agiu com humildade e reconheceu, a consertou e continua nessa trajetória. Na ciência e na vida não existe estabilidade, erros acontecem (mesmo os bem-intencionados) mas necessitam de reparação.
Veja bem, ambas as ações levarão a consequências, a pergunta não é o que faríamos nessa situação e sim o que fazemos.
Todos nós, alguma vez na vida, nos deparamos com nossos próprios erros - erros esses que prejudicam terceiros - e cabe a nós decidir se continuaremos seguindo o mesmo caminho para manter os benefícios daquilo ou se nos confrontaremos a ponto de mudar nossas atitudes e dar a nós mesmos e aos outros a verdade, mesmo que isso implique sofrer consequências chatas a curto prazo.
A vida é como a ciência: Os erros acontecem, mas devem ser consertados. Se implica terceiros é preciso vencer a vaidade e se colocar de forma humilde para reparar os danos aos outros, mesmo que não tenham sido propositais. Assim como todos achariam anti ético um cientista insistir em algo prejudicial só para manter o prestígio de outrora, também seria esperado que ele consertasse seu erro e focasse em ser mais criterioso posteriormente.
Então fica o questionamento: O que NÓS fazemos quando nos apercebemos sendo o cientista que errou, omitimos ou revelamos?



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