outubro 06, 2022

"EDUCAR NÃO É ENSINAR, EDUCAR É SER!"

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Ontem foi dia internacional do professor e me deparei com essa belíssima frase.

Fui tomada por uma série de reflexões que versavam sobre a diferença de ensinar a educar. 

Como professora, sei que nosso modelo educacional preza, principalmente, pelo ensino e não pela educação. Há de considerar a quantidade de avaliações a que os alunos são submetidos anualmente sem que isso signifique um real aprendizado. 

Ensinar, em alguns métodos, significa repetir exaustivamente uma teoria ou ponto de vista até que o educando decore e possa viver sob essa rigidez. Pouco importa se ele desenvolveu habilidades reais para lidar com as situações da vida a partir daquele novo conhecimento. Nada de pensamento crítico, nada de discordância, nada de opiniões embasadas. Mas calma, isso não é culpa dos professores que querem acabar com as crianças. Essa responsabilidade é do nosso modelo educacional que NADA tem a ver com o método proposto por Paulo Freire, diga-se de passagem.

Falando nele, há uma frase famosa e muito citada que diz:

"QUANDO a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor". 

Muitas vezes essa frase é picotada dando a entender que toda pessoa oprimida deseja o poder de tornar da vida dos outros um inferno, o que não é verdade. Paulo Freire condicionou esse desejo de opressão a uma educação que não liberta o educando, ou seja, que o mantém esperançoso de que a única coisa boa da vida é ter o poder de quem está numa posição hierárquica acima da sua, para então repetir o feito. Lembre-se de todas as vezes que você viu uma criança depois de apanhar dos pais confabulando alguma vingança, por exemplo. Mas esse não é o único caminho: há a possibilidade de romper com o ciclo de opressão e para isso é necessário mais do que simplesmente ensino, é necessário a educação.

A educação parte de dentro. 

Isso significa que nossos diplomas e certificações, no caso dos professores, vão nos habilitar e instruir, mas se não acreditarmos no conteúdo que passamos, apenas ensinaremos. 

Veja, um professor incentiva mais um aluno a ler quando chega toda santa aula com um livro na mão (inclusive, livros populares e de literatura infanto-juvenil), se propõe a tirar dúvidas sobre ele e cria um projeto de leitura, por exemplo, do que se passar um ano inteiro repetindo jargões da literatura brasileira que os alunos nem conhecem e criticando os livros que os alunos gostam de ler, como Harry Potter. No primeiro caso, o professor orienta com a fala (ensina) E mostra com o exemplo diário que ele mesmo aprecia a leitura. Assim, chegar com o livro na mão e falar sobre ele, se torna uma ferramenta educativa através exemplo, por mais que ele não estivesse lendo naquele exato minuto. No segundo caso, o aluno não foi inserido no contexto da leitura, teve seus gostos pessoais atacados (lembrando que ninguém tem obrigação de ler Machado de Assis) e por ter outros interesses, provavelmente, não pegará num livro até segunda ordem, levando as palavras do professor apenas como uma sugestão ou uma lição de moral. 

Quem realmente participou do processo de educação? O primeiro que fez a mescla da orientação + exemplo ou o segundo que apenas orientou e esperou o interesse surgir no aluno sem nem estimular?

Em nossa sociedade, somos tão acostumados a acreditar que educar significa ensinar que pouco nos interessamos em saber e ouvir as necessidades e opiniões daqueles a quem nos propomos a "educar". Deixamos muitas coisas por conta da cultura ou da natureza esperando simplesmente que humanos com pouquíssima idade saibam discernir o certo do errado apenas com sermões gigantescos (que eles nem escutam) ou castigos. Em alguns casos, como o da educação s3xu@al, NEM existe uma orientação saudável, apenas se espera que eles saibam como respeitar a si mesmo e aos outros por uma intuição quase que divina, como se não pudessem errar e, pior, como se seus erros não gerassem consequências (muitas vezes graves).

 Enfim, como essas crianças e adolescentes vão crescer de forma saudável se foram ensinadas verbalmente a fazerem uma coisa, mas aprenderam com as atitudes outra?

Por isso, a educação é sobre SER. 

Existem vários trechos bíblicos e sabedoria de diversos povos e religiões que apontam para esse caminho: exteriorizamos o que temos dentro de nós. 

Uma pessoa realmente verdadeira, não só fala sobre verdade, mas age com verdade mesmo que isso lhe doa. Uma pessoa justa mesmo que erre buscará consertar seu caminho e reparar os prejuízos tão logo perceba seu erro, por exemplo. Note, essas não são virtudes naturais ou partes de uma essência boa, mas trabalhos diários realizados por quem acredita, de fato, nelas. Mas nós, queremos que crianças e adolescentes se desculpem, quando nós - adultos- raramente nos arrependemos sinceramente de um erro. Sempre o paramentamos de "errei tentando acertar" (o que não muda em nada o fato de que errou), "então eu não presto para nada" (forma de trabalhar com a culpa emocional e constranger a pessoa para não falar mais sobre isso) ou até mesmo a fatídica responsabilização de terceiros como "a culpa é sua" ou "errei mas só porque fulano fez X ou Y". Logo, cobramos deles algo que não fazemos bem. 

A melhor forma de educar alguém sobre o valor de se desculpar de verdade, além de orientá-la, claro, é ser uma pessoa que vê a importância não só de receber, mas de pedir desculpas sinceras para melhorar suas relações, caso erre. Uma pessoa que vê seus pais/mestres reconhecendo que não são perfeitos, assumindo seus erros e melhorando seus caminhos terá muito mais facilidade para lidar com o processo de desculpa do que aquelas que vêem as referências banalizando o pedindo de desculpas (tipo aqueles que pedem a qualquer hora sem a menor reflexão e depois fazem tudo de novo) ou que fazem isso parecer um sacrifício (por estarem amargurados com tanta culpa), quando fazem. Se desculpar verdadeiramente, é um ato de assumir sua humanidade, mas não usá-la como justificativa para magoar os outros.

Existe um versículo interessante que diz "Instrui a criança no caminho que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele" (pv 22.6). Esse texto, ao contrário do que muitos pensam, NÃO é uma promessa/profecia e sim uma reflexão/sabedoria que se mostra confiável. A instrução requer um método aplicado e acompanhamento. Não é a pura transmissão de conhecimento, mas um olhar que preze pelo educando e suas necessidades. Aquele que instrui deve estar atento às limitações e capacidades do que o ouve e adaptar a educação de modo que o contemple. Um instrutor de equitação, por exemplo, não vai falar sobre as técnicas para tal esporte uma ou duas vezes e deixar que a pessoa se vire sem que ele tenha dado aulas o suficiente e demonstrado cada passo com atenção, o mesmo deve ser feito com o educando. Muitas pessoas, erroneamente, acham que jogar uma criança numa sala de aula ou levar para a sua religião, por exemplo, é o suficiente para que ela cresça com apreço à educação ou a fé. Acham que debater regras gramaticais ou doutrinas religiosas é, realmente, algo que faz diferença na psique infantil. Mas esquecem de ser exemplos reais sobre o que acreditam. A criança vê você valorizando o aprendizado mesmo que tenha sido privado de um estudo formal? O vê agradecendo ao seu Deus pela vida e a apreciando sem fanatismo ou o vê atolado de afazeres religiosos e encegueirado por uma liturgia e pelas falas da autoridade? Ela vê você priorizando um momento bom em família para além das convenções? Isso é o que, realmente, faz diferença no futuro. Se você não aprecia, de fato, o seu núcleo familiar e precisa sempre expandi-lo, não dá para falar de família sempre e esperar que seus filhos ou alguém de fora aprecie por você. Se você não gosta de ficar em casa, não pode esperar que seus filhos gostem. Se você, enquanto mestre, não dá exemplo, não tem como cobrar isso do educando.

Todos erramos. Pais, líderes, professores. Erramos porque somos humanos. Mas podemos trabalhar diariamente para sermos aquilo que ensinamos. 

Se eu vivo pela regra do "faça o que digo, mas não faça o que eu faço", inevitavelmente, vou formar uma onda de pessoas revoltadas cujo o maior desejo (mesmo secreto) é se tornarem patrões, pais e professores para reproduzirem o que sofreram de uma forma ou de outra. Minha educação vai se centrar na capacidade de ensinar e ver o educando ou filho como uma máquina onde eu só vou jogando o que considero essencial, mas não tenho cuidado de verificar o andamento da operação. Mas se eu penso que para educar alguém, preciso ser e ter os valores de que falo, ao invés de me focar só em falar/repetir, posso me aperfeiçoar todo santo dia, reconhecendo minhas falhas e limitações, e abrindo espaço para uma educação mais saudável. 




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