julho 07, 2020

Análise imagética: (Caso Miguel) Entrevista Sari Corte Real no Fantástico

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No dia 05 de julho de 2020 um quadro do programa Fantástico entrevistou Sari Corte Real, a mulher que colocou Miguel - de 5 anos de idade- sozinho em um elevador, o que o levou a morte.
Mirtes Renata e seu filho Miguel


Contextualizando:
No dia da tragédia ocorrida no dia 02 de junho, Mirtes Renata – a empregada doméstica de Sari e mãe de Miguel-, precisou levar o filho ao trabalho, pois não tinha com quem deixa-lo. Em época de pandemia a situação foi aceita sem reclamação por parte dos patrões. Enquanto Sari estava fazia unha, Mirtes teve que levar a cachorra da patroa para passear e como as crianças estavam agitadas (seu filho mais os da patroa), ela pediu para que eles ficassem em casa, pois seria difícil sair com todos. Mirtes consentiu e disse que a porta estava trancada.
Logo, Miguel ficou por alguns minutos sob os cuidados de Sari.  Quando o menino de 5 anos sentiu falta da mãe, foi ao elevador procurar a mãe. As câmeras de segurança do prédio de luxo de Recife, mostram que nas 5 tentativas da criança de ir ao encontro da mãe, em 4 Sari conseguiu tirá-lo de lá, mas na quinta vez – quando entrou do elevador de serviço- a patroa apertou um botão e o deixou procurar sua mãe pelo condomínio sozinho. Ao fechar a porta, o menino apertou outros botões e foi para o nono andar de onde caiu de um alto beiral, ocasionando sua morte. Mirtes, a mãe de Miguel, ainda encontrou o filho com vida quando voltou do passeio com a cachorra, mas infelizmente o menino não resistiu.

Posicionamento da imprensa:
Quando as primeiras manchetes foram ao ar o público se manifestou em peso nas redes sociais rechaçando a atitude da patroa de não ter efetivamente se responsabilizado pela vida de uma criança de 5 anos. Mostrando descaso, irresponsabilidade, frieza e também racismo. Já que é impensável deixar uma criança circular sozinha diante de tantas coisas ruins que podem acontecer a ela.
A imprensa omitiu o quando pôde a identidade de Sari. Ela é primeira dama de Tamandaré, em Pernambuco e foi indiciada por abandono de incapaz, podendo ser condenada a até 12 anos de prisão. Entende-se que sua decisão – de deixar o menino no elevador e não monitorar o andar para onde ele estava indo- foi o ponto decisivo para a tragédia que ocorreu posteriormente.

Racismo:
O caso foi rapidamente vinculado ao racismo brasileiro que, não contendo as características dos regimes segregacionistas, forma uma película social onde as pessoas -através dos meios de comunicação, literatura e outros- naturalizam a violência contra pobres – que em geral são pardos e negros-, o que permite que essas vidas não tenham tanto valor e credibilidade para a população. Sendo assim, ao permitir que uma criança de 5 anos ficasse sozinha em um elevador, coloca-se em xeque se essa atitude não foi motivada também pelo descaso com a vida do menino. E abre-se contraste diante de outras tragédias envolvendo crianças brancas que pararam o país.
Nota: Fica claro que nenhuma tragédia deve ser mais noticiada do que outra e que todas as vidas tem -filosoficamente- o mesmo valor, porém a atenção dada em tais casos mostra que não, as vidas infelizmente não tem o mesmo peso em nossa sociedade e crianças negras são consideradas menos puras e angelicais que as brancas (notem quantas crianças morrem assassinadas por erro policial e os casos são abafados ou montagens são feitas para associar essas crianças ao tráfico).

Fantástico:
Não é de hoje que o Fantástico abre espaço para pessoas envolvidas em crimes, principalmente assassinato, darem a sua versão da história, ou mesmo, usarem o programa como uma plataforma para se humanizarem diante do público. Em geral, aparecem com roupas claras ou que remetam a infantilidade e pureza, fala mansa e retórica comovente. Assim como nas ocasiões abaixo onde as entrevistas não faziam parte de um quadro ou coisa parecida, mas foram feitas com o propósito de abrir um canal de comunicação entre os criminosos e o público.

Suzane von Richthofen
Na época, com 22 anos, Suzane se vestiu com uma blusa rosa com mangas bufantes e estampa do Minnie e pantufas nos pés.Com a franja cobrindo o rosto e totalmente infantilizada e imatura, a ideia era tornar Suzane vulnerável aos olhos do público sujeita a manipulação do namorado para matar os pais. 

Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá
Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá foram condenados pelo homicídio triplamente qualificado da menina Isabela (filha e enteada, respectivamente). Na entrevista dada ao Fantástico, ambos afirmam que nunca fizeram mal a menina. Reforçaram a versão de que um ladão teria invadido a casas e a jogado da janela - o que a investigação refutou- e usaram roupas claras, voz de choro, nenhuma maquiagem, além de elementos neutros no ambiente (excetuando-se o sofá -que não interferiu na entrevista, além de dar noção de humildade).

Do mesmo modo, seguiu-se esteticamente a entrevista com Sari Corte Real.

Não podemos afirmar que a produção deu alguma instrução de vestimenta a ela, provavelmente os advogados fizeram a instrução. Pois sabe-se que performar uma pessoa inocente envolve o uso de características e acessórios que a façam parecer alguém incapaz de ferir outra pessoa.

No caso de Sari, ao contrário dos anteriores,  não houve assassinato e sim negligência. Assim, a intenção é desassociar a imagem dela a morte do menino, criando a ideia de que, no máximo, ela foi distraída ou inocente e não irresponsável.

Vejamos os elementos:
  •        Sari participou da entrevista de blusa branca;
  •        Sem maquiagem (ou com maquiagem mínima);
  •        Colar com um pingente de mãe (grávida) – o que reforça a         narrativa de que como também é mãe, seria incapaz de               prejudicar o filho de outra pessoa e sabe o que Mirtes                 sente;
  •        Segurando um terço – o que produz a noção de que é uma mulher temente a Deus;


·    Além disso, ao fundo está uma estante cheia de livros que remetem a noção de seriedade e não opulência, ao contrário de outras partes da casa que poderiam reforçar a ideia de que ela é uma mulher desalmada por causa do dinheiro.



O cenário meticulosamente montado, assim como sua apresentação, fazem parte da semiótica de que ela não pode ser tão penalizada assim, pois mesmo que a criança tenha morrido foi apenas um acidente, algo não planejado.
Porém, sabemos que o contrário nunca seria possível caso Mirtes Renata tivesse sido displicente com seus filhos. 

Mesmo cuidando com zelo, se Mirtes desviasse o olhar de um dos filhos da patroa, mesmo com acúmulo de função, e eles caíssem da sacada, o julgamento seria implacável.

A questão para reflexão é a motivação de um programa de relevância nacional abrir espaço para uma explicação/retratação pública desnecessária, uma vez que há um sistema legislativo capaz de julgar o caso sem interferência da população.

Assim como na linguagem não-verbal (que aqui é a imagem), Sari fez um discurso se desresponsabilizando pela tragédia. Dizendo que fez tudo ao seu alcance e que não podia prever o que aconteceria, a primeira-dama se infantilizou ao colocar que não era dela a obrigação de conter a criança. De fato, é impossível saber o futuro, porém é isso que afasta os adultos das crianças: a capacidade de pensar nas possibilidades e se precaver. Os adultos são responsáveis pelas crianças. De acordo com a Constituição Federal, em seu artigo 227, a infância e a adolescência são de responsabilidade da família, do Estado e da sociedade, de maneira a assegurar uma série de direitos para esta parcela da população. Sendo assim, como a adulta da situação, Sari era responsável por ele.

Ao convidar Sari para falar e tendo-a como pauta principal, o Fantástico tira o foco da vida de Miguel e do sofrimento da família. A mãe de Miguel, Mirtes, entra como um apêndice à matéria, não tendo espaço para falar a partir da sua perspectiva sem que a ex-patroa seja incluída.

Sari não quer a piedade do povo porque o que o povo pensa não a afeta, ela quer deixar claro que não pode ser responsabilizado pelas “escolhas” de uma criança e que ela não se envolve nas “questões pessoais” da sua empregada, ou seja, seu filho. Em todo tempo ela verbaliza que está socialmente e hierarquicamente distante de Mirtes e, consequentemente, de Miguel. Mantê-lo em casa seria cuidar dele. Sari mostra através de suas falas e símbolos que não estava disposta a isso, que ela é a pessoa que deve ser cuidada. Com a filha chorando e sua unha a fazer, ela responsabilizou uma criança de 5 anos por ser “esperto” e provavelmente saber os números. Sari deslegitima a luta de Mirtes por justiça no momento em que equivale a sua narrativa à da mãe. Ela considera um absurdo ser vinculada ao caso, já que para ela, não havia nada a mais que pudesse ser feito, quando havia.

Em todo momento, através das suas falas e elementos, ela se impõe como ponto decisivo dessa história, não pela culpa ou arrependimento, mas por uma simples "distração" ou uma tragédia impensável que não pode ser colocada na conta dela. Como se julgá-la, nesse caso, partisse do ódio gratuito por ela.

Fazendo isso, a Rede Globo mantém a ideia de que a vítima e as pessoas afetadas precisam trabalhar com algum tipo de perdão impositivo, abre espaço para que o público veja Sari como inocente- sem que tenha sido julgada- e centra a narrativa naquela em que realmente importa: a mulher branca, rica e destacada da sociedade. Aquela que pode escolher pedir perdão, a que pode perfomar arrependimento ao mesmo tempo que verbaliza que fez tudo o que podia, enquanto seu desleixo provocou a morte de uma criança.


Tainara Cezar



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