julho 07, 2020

Análise Imagética: Caso Mario Frias- Capa da Folha de São Paulo

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No dia 20 de junho de 2020, algumas horas após a publicação no DOU do novo secretário especial da Cultura, o jornal Folha de São Paulo lançou a capa de um dos seus cadernos com uma foto seminua do ator e então secretário, Mario Frias.


Quem é Mario Frias?
Mario Frias, que atuou como ator principalmente na rede Globo e Band, é um ativo defensor do governo de Jair Bolsonaro nas redes sociais e sempre mostra sua satisfação relacionada ao governo.

Contextualizando:
A insatisfação geral com a pasta de Cultura vem desde que, em janeiro de 2019 – logo após a posse de Bolsonaro–, o governo extinguiu o Ministério da Cultura – prática que também ocorreu em 2016 no governo Temer, mas foi revista– e suas atribuições foram transferidas para o recém criado Ministério da Cidadania.  

A Secretaria de cultura, que agora compõe o Ministério da Cidadania, já foi dirigida por Roberto Alvim, que foi desligado em janeiro de 2020 após fazer um vídeo com apologia nazista. E logo teve como substituta Regina Duarte, que após um logo “noivado” com Bolsonaro, foi demitida após uma entrevista na CNN onde minimizou as mortes pelo novo corona-vírus, zombou aos risos dos mortos pela ditadura militar brasileira e se irritou ao vivo com os apresentadores do programa. Sua já perturbada permanência na pasta foi rebaixada para os cuidados da Cinemateca de São Paulo – instituição federal que passa por crise financeira.

Frias, no entanto, não tem relevância nacional no setor artístico como Duarte. Não tem uma longa carreira de destaque e seus papeis foram pequenos na maioria das tramas que participou. Além disso, não estava envolvido ou no setor cultural para articular as demandas que o mesmo possui atualmente. Sua nomeação se deu apenas por seu aparelhamento ao governo.
A falta de qualificação para o cargo, no entanto, não foi motivo suficiente para uma crítica da Folha de São Paulo. O jornal preferiu anunciar a posse com sua foto seminu e com título “O novo homem do presidente” em tom de brincadeira.

Que Jair Bolsonaro e muitos dos seus apoiadores têm obsessão por se expressar em termos sexuais, se colocando também como fiscais de sexualidade alheia todos sabem, mas ao lançar uma capa nesse sentido a Folha de São Paulo reforça algumas condições:

Vulnerabilidade
A capa apresenta uma foto antiga do ator que faz parte do ensaio sensual clicado pela fotógrafa Nana Moraes para o site Papparazo. Para acessar o ensaio  CLIQUE AQUI .

O fato de o ex-ator estar deitado com as nádegas semi amostras para cima, com o “cofrinho” propositalmente aparecendo, olhando diretamente para a câmera e sorrindo apresenta um claro sinal de vulnerabilidade. Fotos como essa são vistos em propagandas da Calvin Klein de cuecas. Elas funcionam como um convite ao leitor para navegar pelo seu corpo do modelo (neste caso ator) com o corte ideal para vermos apenas o necessário e dar sensação de quero mais. A finalidade do ensaio sensual é instigar o observador a descobrir o corpo através de cada foto.

A foto, de 2007, segue o estilo de muitos ensaios feitos com galãs e ex-galãs. Até então, o ator era ex-galã da novela Malhação e ainda ocupava certo prestígio dentro do nicho e estava seguindo para a novela infantil Floribella.

Homofobia:
O uso proposital desta foto em 2020, ou seja, 13 anos depois do ensaio releva o objetivo da folha em descredibilizar o ator e o presidente usando uma retórica de deboche. A insinuação sexual com a soma da imagem mais a legenda, revela que para o jornal a falta de qualificação suficiente para o cargo não é o maior problema e sim uma suposta disposição do ator de estar sexualmente ou mentalmente à disposição de Bolsonaro.

Aqui o ataque se dirige a três pilares:
  • Ao ex-ator – que supostamente faria tudo para agradar o presidente, incluindo favores sexuais. Do contrário, ele não seria anunciado com essa foto.
  • Ao presidente – que implicitamente está sendo colocado como um hétero de fachada. Ou seja, um homem que sente atração por outros, mas mantém um discurso conservador por sua própria homossexualidade ou bissexualidade enrustida.
  •  Aos seus eleitores – que afirmam conservadorismo e desprezam homossexuais, mas podem também ter desejos sexuais por outros homens.


Rotatividade:
Ao utilizar o termo "novo" a Folha reforça a questão de rotatividade no governo, mas em um tom sugestivo que leva a pensar que a rotatividade se dá por uma ganância onde esses homens são usados e descartados.
É importante salientar que a capa possui duplo sentido, então ela atinge o nível simples carnal de associar a questões sexuais, como também um mais sutil de insinuar que se o homem está a disposição do presidente até mesmo no corpo, logo sua mente já está totalmente comprometida, não tendo ele condições de gerir a pasta sozinho sem interferência direta do chefe do executivo, vetando sua autonomia.

Conclusão:
A Folha de São Paulo mostra mais uma vez que questões morais estão acima da boa gestão do país e se propõe a manter um diálogo rebaixado ao fazer críticas a qualquer governo – vale lembrar que as críticas aos governos petistas também vinham recheadas de deboche e misoginia.

Não há intenção, por parte do jornal, de fazer elevar o debate de forma relevante com críticas consistentes ao governo Bolsonaro – que por si só é um prato cheio-, mas traz questões irrelevantes que prejudicam o público lgbt, pois associa-se a incapacidade da gestão a sua suposta sexualidade reprimida.

Assim, a Folha de São Paulo usou a linguagem verbal e não-verbal, com um jogo de palavras e fotos, para abrir uma comunicação com as pessoas através dos símbolos e signos em um arranjo perfeito que descredibilizasse o governo por um meio questionável. Não era necessário fazer isso, já que a própria gestão do presidente é passível de críticas e seus convite foi totalmente descabido.
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Tainara Cezar


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