Estar prestes a me formar sempre dá um arrepio na espinha. A condição de bolsista pesquisadora para formada e desempregada é aterrorizante. Nunca gostei dos momentos de luto que vivo entre a transição de etapas, apesar de saber que são fundamentais em minha jornada.
Agora me vejo paralisada diante de uma dissertação a escrever. Um tema que amo, forjado após anos de estudo perde a cor frente a insegurança futura. Como se não escrever fosse de alguma forma parar o tempo e me manter para sempre nessa dinâmica de pesquisa e estabilidade.
Adultos não gostam de falar sobre seus sentimentos, mas eu amo falar dos meus. Estou morrendo de medo. Medo porque agora sou mãe e sei que priorizam mulheres sem filhos. Medo por voltar ao mercado de trabalho com um bebê pequeno e ficar longe dele, confiando em cuidadores diante de tantos casos aterrorizantes de abusos. Medo por não ser inteligente o suficiente e me perceber sendo uma farsa, como eu sempre me pego sendo. Talvez este seja o meu maior medo: perceber que por trás dessa casca grossa, eu sempre tenho medo de não ser.
Venho tentando me reeguer pouco a pouco, mas é difícil. Cada dia que passa me cobro e me puno. Mesmo assim eles não voltam, partiram para sempre na linha do passado.
Diante do tempo não sou ninguém, mas da minha própria existência preciso ser alguém. Que o medo não me paralise novamente.
Se eu conseguir o título, perderei mais coisas? Esse mestrado me remete a tudo de ruim que passei nesses anos e tenho medo do título me engolir ainda mais na solidão? Estou me sabotando ou fui sabotada e agora temo progredir e perder ainda mais?
Sei o quão potente é a minha pesquisa, mesmo assim parece que tento provar que ela não é. Pois a cada momento que me recuso a escrever provo a irrelevância dela. Ou a irrelevância de mim. É como se quisesse mostrar que a escolha foi errada, que eu não devia ter sido beneficiada com a bolsa mesmo tendo nota.
Estou confusa. A titulação é o que eu tanto quero, mas também não quero me despedir da estabilidade que hoje se apresenta.
Alguém me daria um emprego de pesquisadora remota? Isso certamente resolveria os meus problemas.



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