agosto 31, 2021

Reflexão

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Durante bons anos (por questões externas)  acreditei que se focasse em minha carreira poderia trazer prejuízo à minha vida pessoal e relacionamentos. Como tenho algo parecido com hiperfoco, morria de medo de ficar tão obcecada com minhas áreas de interesse a ponto de esquecer da vida. [/Isso nunca aconteceu].

Foram necessários 2 anos e pouco de terapia para eu aceitar que pensar na minha profissionalização não era egoísmo. Como ia dizer não para as expectativas dos meus pais, dos meus sogros, dos meus amigos de ter filhos e compor uma 'família linda' de comercial de margarida com meu marido se, no auge dos meus 27 anos, eu queria adiar mais 2 anos esse plano externo por querer seguir minha carreira acadêmica (prorrogável por mais 4 anos, caso passe para o doutorado)? Eu não tinha medo de reprovar na prova do mestrado, pelo contrário, eu sabia que tinha condições de passar e meu medo vinha disso. O que eu ia fazer se passasse? Como eu ia decepcionar todo mundo para viver a minha própria vida? Eu fui criada para dividir tudo: a minha vida, a minha casa, os meus brinquedos, os meus sentimentos e era culpabilizada quando preferia me priorizar, quando dizia não aos abusos, quando não aceitava tudo para ter uma família. Eu não aprendi a estabelecer limites com os outros, sobre priorizar a minha própria narrativa e entender que eu ia sofrer as consequências disso. Mas como adulta, tive e tenho que aprender.

A independência me assustava muito porque aprendi que mulheres que pensam em si mesmas antes dos outros (e tomam atitudes que demarquem isso) ficam sozinhas, seja porque as pessoas não aguentam ficar ao lado delas ou porque elas não aguentam as pessoas. Essa cobrança, inclusive, é mais evidentes em famílias de classe média baixa e o caso fica mais acentuado se houver vínculo dessa mulher com uma religião de raiz semítica (judaísmo, cristianismo, islamismo). A sociedade é cruel com mulheres e usa o medo da solidão para nos parar e punir a todo momento. Pode parecer estranho, mas direta ou indiretamente essa relação sempre fez parte da minha vida. Não priorizar a família ou o marido sempre foi igual a ser uma esposa ruim, uma mulher que destruía a própria família por egoísmo.


É importante falar sobre isso porque ser uma mulher feminista não me impediu de ter medos advindos do patriarcado e me boicotar. Mas me abriu os olhos para a necessidade de levar isso para a análise e tratar a raiz do que me afligia. Só eu sei o turbilhão de coisas que me atingiram entre o fim do ano passado e início deste ano e como esse medo desesperador atingiu minha autoestima com toda força. 

Foi lendo o livro "Complexo de Cinderela" de Colette Dowling e consumindo muita filosofia feminina e feminista é que entendi que isso não era normal e que, apesar de ser algo estrutural, necessitava de uma atitude direta minha para sair desse ciclo.

Estou trazendo isso porque sei que algumas amigas acham que eu não sinto medo de tentar coisas novas pelas diversas coisas que participei durante a vida, acham que eu não tenho medo de tocar em assuntos sensíveis ou que nunca tenho conflitos relativos à minha personalidade. Sim, eu me desafio bastante, mas isso não significa que eu não sinta medo e nem que eu não sofra resistência (sofro). Nos ensinam a ter medo, a não confiar em nossas potências e intuições, a não fazer nossas coisas por prazer, a achar que servimos principalmente para o cuidado.

E depois de tudo isso, estou aqui pra dizer que quando me permiti (não sem muita tensão) chegar a alguns lugares que eu sabia que tinha condições de alcançar, encontrei algo que nem imaginava: a mim mesma. Não o que falaram que eu era ou as expectativas ao meu respeito enquanto filha, esposa, irmã, nora, amiga, etc..., mas eu.
Isso tem me permitido diariamente vencer barreiras e acreditar nas minhas capacidades.

O que culmina em um ponto importante: Hoje começa um evento importante na área de História (minha área de formação) para o qual submeti meu primeiro mini-curso. E para a minha surpresa, apesar de todos os conflitos, medos, pensamentos de desistência e tudo mais, ele consta com 667 inscritos. Sim, mais de SEISCENTAS pessoas querem aprender comigo sobre 'O protagonismo negro nas cartes-de-viste no século XIX: Análise fotográfica' e isso me enche de alegria.

Para alguém que sempre foi criticada, chamada de chata e afins simplesmente por gostar de estudar, que ouviu muitos comentários no início da adolescência de mulheres adultas cristãs e desocupadas que associavam meu interesse pelo estudo e falta de namorado a ser lésbica (e, claro, sofrer muita perseguição psicológica por causa disso), que ouviu de rapazes que ia ficar sozinha por "não saber seu lugar", que ouviu oposição de parentes por não "dar um filhinho pro Rafael" e por não ter prazer em ser a dona de casa das séries americanas da década de 50, me dá muita, mas muita alegria trilhar o meu caminho e colher resultados bons, sustentar minha decisão e ver que, apesar de toda dificuldade interna que tive, está sendo bom.

Não existe uma lei que confira às mulheres autoridade nata, nem séculos de literatura que digam o quanto somos capazes para o intelecto e racionalidade, nem uma religião que diga aos homens que se “amadurecemos mais cedo”, então devemos ocupar os cargos de liderança. Não há nada, como existe para os homens, além da nossa própria capacidade de organização, que sirva de base para que nos sintamos potentes fora do ambiente do lar, mas mesmo assim estamos conseguindo.


Meninas, não desistam de criar uma trajetória que orgulhe vocês (seja ela qual for)! Eu me comprometo a não desistir da minha.

 

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