março 27, 2021

Uma mulher da política

|

Compartilhei esse texto no feed do instagram e achei necessário continuar aqui:

Sou uma mulher que gosta de política.

Eu sei, para muitos foi uma surpresa quando, em 2017, comecei a me posicionar mais ativamente sobre isso no facebook, apesar de já falar disso com pessoas mais próximas e também no blog. Muito me surpreendeu que tal característica minha - pouquíssimo disfarçada, aliás- fosse gerar tanta dor de cabeça. Entre insultos pessoais e muito melindre de gente covarde, aprendi na marra que ou me calava como sempre para agradar ou sairia do casulo. E decidi sair bem como sou: falante, brincalhona, muito politizada e também arteira.

Desde pequena ouço minha mãe dizer que eu parecia com os militantes pela vontade de entender coisas que considerava injustas. Nunca observei isso como uma demérito, apenas como um ponto de personalidade, apesar de saber que isso não era falado do modo mais admirado possível.

Por vários anos tentei me adequar às expectativas alheias para não ser mais chata do que dizem que eu sou; para ser a mulher ideal: estudiosa, ponderada, trabalhadora, família, devota a todas as necessidades do companheiro antes da própria, sempre com um sorriso no rosto e pouco questionadora com coisas externas à vida familiar e espiritual. Mas essa não sou toda eu... Tenho alguns desses pontos E também tenho PRAZER em entender e discutir o mundo em que vivemos. Não vou fingir que sou diferente para adentrar em temas que não me interessam apenas para agradar os outros e ter uma aceitação quase que anestésica (porque sabemos que boa parte das mulheres, na verdade, são ignoradas).

Sim, eu realmente gosto de me debruçar sobre um texto de teoria política e ficar quebrando a cabeça para entendê-lo, gosto dos debates, gosto de analisar e reanalisar questões que acho pertinente de tempos em tempos. Isso não é um ponto de elevação moral, gostar de política é como gostar de qualquer outro tema corriqueiro. Não tenho problema em debater, discutir política ou coisa parecida, apenas prezo para que isso seja feito de modo honesto, respeitoso e principalmente por pessoas que entendam conceitos básicos do que está sendo discutido. Do contrário, você é chamada de arrogante por falar o óbvio quando a pessoa se sente encurralada ou diminuída pela falta de argumento. Algumas pessoas entendem, infelizmente, que o gosto por política é idolatrar políticos e se digladiar com outros em nome do que acham certo. Não é assim que vejo. É claro que defendo meus ideais, não serei hipócrita de negar, mas é preciso se preocupar em manter, inclusive, uma autocrítica a sua própria base.

Descobri ainda que o universo político é masculino. Não porque mulheres não se interessem por política, mas porque são rechaçadas e sofrem perseguição caso ousem falar a partir de seus próprios interesses e em seu próprio tom, sem repetirem exatamente o que outro homem do seu círculo fala. Minha experiência deixou claro que, para muitos, se meu companheiro não falasse abertamente de política, então eu não deveria falar para não envergonhá-lo (?). Como se eu fosse um apêndice tendo os meus gostos, repertórios e até uma intelectualidade subjugada a dele. Não foram poucas as vezes que ouvi que devia ser difícil para o Rafael ter uma mulher tão ativa na politicamente, que ele se sentiria intimidado (? um homem de 1,84 de altura e 80 kgs intimidado por mim com 1,63 e 66kg ?) ou que não reclamava apenas para não me chatear. "Tadinho do Rafael"...

Para algumas pessoas SE eu falasse, deveria falar , sobretudo, de forma totalmente abnegada, quase morna e buscando utopias impraticáveis como ser gentil a todo tempo, servir sem esperar nada em troca, não se irritar com quem me oprime para não se igualar a ele (??), manter a vaidade em dia por ser um serviço à comunidade. Gente! Ninguém é bom sempre. Devemos nos esforçar para sermos justos, mas a multiplicidade de emoções fazem parte da humanidade e elas não desaparecem porque eu brinco de fazer chá toda tarde. O serviço abnegado é importante, mas não uma regra em um mundo desigual. Em vários momentos temos que frear e dar conta das nossas prioridades antes dos outros. Comparar a reação de alguém que está sofrendo com a atitude maldosa de quem a faz é de uma covardia e falsa simetria imensa! Em termos gerais, esperam que mulheres observem a realidade passivamente, sem reclamar (apenas quando envolve a criação de filhos e a relação estatal), ignorando as dificuldades para focar num novo mundo onde todos os seus esforços de abnegação eterna serão reconhecidos. Quase religioso, não?
 
Machismo, política e casamento:

Esses comentários, além de muito maldosos, não dão conta de entender a individualidade que há entre um casal. Pessoas são diferentes, se portam de modo diferente e mesmo assim podem ficar juntas em harmonia mantendo suas personalidades. Com esses comentários, vemos que uma pessoa do casal precisa ser anexada à outra, excluída ou oprimida, e espera-se que essa pessoa seja, naturalmente, a mulher. Não conseguem conceber um mundo onde no casal um não engula ao outro. Que loucura! Então dentro desse pensamento, se eu falo de política na internet, assumo um papel masculino. Nos termos mais populares eu me torno "o homem da relação", olha que coisa tosca, não? A política não é masculina nem feminina, é coisa de PESSOAS. Pessoas vivem no mundo, são impactadas por tudo que acontece neles e se importam (ou não). 

Eu e Rafael temos personalidades diferentes. Sou mais falante, ele um pouco mais quieto. Sou mais agitada, ele mais parado. Ambos adoramos conversar e debater, a diferença é que eu posso e prefiro fazer isso de um palanque, enquanto ele prefere fazer em grupos pequenos olhando no olho das pessoas. Eu sou mais extrovertida, ele mais tímido. Amo fazer um milhão de coisas e ele dá muito valor a cada uma delas, além das coisas que ele mesmo gosta de fazer. Ambos somos cabeças-duras, fieis aos próprios valores,  difíceis de mudar - mas de depois de convencidos também não ficamos remoendo por orgulho. Entre nós eu sou mais coração. Invisto meu tempo em tentar entender as minúcias da relação, em resolver, em ver o que tá dando certo ou não... Ele é mais racional e objetivo, mas gosta muito de demonstrar amor com atitudes amáveis. 

Eu não deixo de ser uma mulher por ser ativa politicamente, por não estar principalmente inquieta sobre ter filhos agora ou amanhã, por não me focar novelas ou por cuidar excessivamente do lar (inclusive, todas as pessoas deviam cuidar bem do lar, mas não a ponto de não terem tempo para pensar na própria realidade) e por não infantilizar meu marido (a ponto de arrumar as coisas dele como uma mãe, pois adultos cuidam das próprias coisas). Rafael não deixa de ser homem por recusar o ideal do machão político que grita com os outros, ameaça, mas é um verdadeiro covarde. O que fazemos um ao outro é por amor, pelo compromisso que estabelecemos e não porque tem que ser assim. 

A sociedade espera e aceita que mulheres sejam surtadas quanto a ciúme excessivo, controle de amizades masculinas, que briguem por bobeiras domésticas, que sejam demasiadamente gastadeiras com cartão de crédito e que passem boa parte do tempo fofocando sobre inutilidades. É permitido que mulheres sejam ativas e até histéricas, mas apenas sobre coisas fúteis ou com coisas do lar, nunca sobre a própria realidade.

E claro que com toda misoginia a mulher é levada a acreditar que o casamento é um tesouro a ser mantido sob toda e qualquer circunstância, onde ela não pode chatear o marido e deve criar o melhor ambiente para não fazê-lo se sentir mal, incapaz ou até mesmo burro. Ela deve se manter (podada) a qualquer custo em uma lógica onde homem e mulher estão mantidos como reféns de um casamento onde não podem ser eles mesmos. Mas pergunto: como duas pessoas viverão juntas sem haver nenhuma chateação ou discordância? Não é estranho que homens se vejam como incapazes ou burros quando a esposa faz algo que ele não faz? Eles não deveriam ficar felizes com a conquista das parceiras? Porque o sucesso deles é condicionado ao fracasso feminino? Isso não faz sentido. As pessoas deveriam se casar com pessoas que amam e admiram porque querem e não porque precisam de alguém para suprir aquele vazio. Eventualmente passarão por crises, mas até isso é normal.

No caso desses exemplos, apenas por falar de política eu estaria maltratando meu marido, o submetendo a um relacionamento infeliz ou seria um algoz pronto para subjugá-lo  caso ele se posicionasse contra os meus argumentos políticos (?). Gente, olha o nível de loucura dessas pessoas para manter essa narrativa mentirosa de que mulheres politizadas são malvadas! Como e por quê meu marido se sentiria intimidado por uma coisa tão pequena? Ele não tem autoestima? Ele é uma criança que precisa de atenção a todo momento e quando não recebe se joga no chão? Ele não conhecia minha personalidade durante 5 anos antes de casar? Ele precisa de defesa? É interessante porque pessoas tendem a se calar quando um relacionamento é realmente abusivo, mas criam sofrimentos inexistentes.

Me perguntaram se o Rafael não tinha votado no Bolsonaro EM SEGREDO apenas para não me desagradar. Fiquei muito chocada com a pergunta porque a pessoa com certeza  vive um um mundo paralelo para achar que ele não teria autonomia para votar em quem quisesse ou se posicionar como quisesse, ignorou a individualidade e personalidade dele e criou um totem de um refém dentro de casa com uma dominatrix. Quando o contrário não acontece. Ninguém fala que mulheres estão sendo maltratadas por seus maridos falarem de política ativamente. Isso é pura misoginia
Rafael não gosta de pessoas como Bolsonaro, isso era suficiente para saber que ele seria fiel aos SEUS valores, não aos meus. Qualquer um que o conhecesse minimamente saberia disso. E mesmo se fosse o contrário, resolveríamos nossas diferenças como um casal e não com ultimatos. Não é assim que se age num casamento. Rafael é um homem centrado e muito firme em seus posicionamentos. 
Me horroriza ver que não só eu sou afetada por meus posicionamentos políticos, como o atacam indiretamente como forma de o punir por ele não emular o machão totalmente surtado que cala a mulher a todo custo.

Qualquer pessoa que nos observe sabe a verdade. Qualquer pessoa que fique com ele durante um tempo percebe que ele é tão certo e firme nos ideias que não cederia a algo só para me agradar, ele faz o que acredita e fim. Isso - criar essas teorias e fazer essas perguntas - é muito desrespeitoso e um ataque deliberado como forma de nos desestabilizar. Rafael não fala de política EXTERNAMENTE porque ele tem preguiça de discussões que não levam a lugar nenhum. Já eu acredito que o debate seja um ponto de mudança, por isso falo. 
Esse machismo tão descarado de acreditar que um homem perde a masculinidade (que inclusive é extremamente frágil) pelas atividades políticas da esposa diminui os dois. Não faz bem a ninguém. Homens e mulheres podem se interessar (ou não) por política e falar disso (ou não).

Nessa caminhada pouco engraçada (e isso é uma pena porque adoro rir), entendi que ser uma mulher que gosta de filosofia política e fala sem pedir autorização ainda é um incômodo social. Que pena... Recebi inúmeras mensagens de homens tentando me ensinar a VERDADEIRA história do Brasil, pois acreditem, ser formada em História não parece suficiente para que aprende por vídeos do youtube, eles precisam me ensinar. Recebi mensagens de homens tentando me ensinar a me comportar como uma esposa adequada na internet, ou seja, sem expor meu marido por falar de política. Que fragilidade é essa? E isso me faz pensar que tipo de senso de inferioridade é esse para a pessoa achar que a outra está sendo exposta por NADA? Será que haveria incômodo do Rafael estar me maltratando se ele falasse de política? Alguma mulher já foi questioná-lo no instagram quando ele postou suas reflexões sobre racismo? Alguém foi dizer que ele falar de uma perspectiva masculina poderia me inferiorizar? Não! Porque essas preocupações nunca foram sobre eu ou ele, eram sobre cada uma dessas pessoas que se incomodaram. Elas se sentiram diminuídas, rejeitadas, mal e por isso me atacaram.

Isso não é um ponto de conflito pra nós. É algo normal, a forma como nos comunicamos há 10 anos. Infantilizar o Rafael é uma forma de lhe negar humanidade como homem que ele é. Nenhum de nós dois tem que performar os papeis de gênero na internet para satisfazer o ego de pessoas inseguras. 

**

A expectativa de que mulheres adultas se importem mais com a aparência do que com a própria realidade material é desanimadora. Se me importasse com qualquer tema como o culto ao corpo, cabelos, filhos, fizesse vídeos de dança ou qualquer coisa, poderia até ganhar dinheiro, mas enquanto uma mulher fazendo comentários sobre política, não só perco amizades como ganho haters. 

Com isso não quero dizer que meus comentários e análises são fofinhos. Não. Eu realmente me esforço para ir ao cerne da questão dentro de minhas possibilidades. Ainda sim, sei que as surpresas e incômodos se dão ao fato de ser mulher, pois as mesmas pessoas que reclamam seguem influencers homens que comunicam as coisas de forma extremamente agressiva e não só assertiva, como eu. 

Ver de tão perto as consequências diretas de falar do que acredito foi revelador. Primeiro para saber que muitas pessoas conhecidas podem ser cruéis e não vão te poupar para manter sua narrativa de vida (já tínhamos visto isso quando saímos da igreja). Segundo para entender que existem papéis de gênero muito delimitados e qualquer coisa que se faça fora disso pode te tirar o título (haha) de mulher ou homem dentro de um casal. É realmente incrível como essa linha de feminilidade e masculinidade é tênue. Terceiro para que eu pudesse, de fato, romper com os ideias que puseram sobre mim e me reafirmar como a adulta que sou, da forma que sou. Sabe? Sou uma pessoa que ri muito, brinca, tenho uma voz fina e boa parte das pessoas me viram quando eu ainda era adolescente e tinha essa áurea mais infantil. O casamento - falo sobre administrar minha casa, minhas emoções e todas as minhas ações sem prestar satisfações a nenhuma autoridade- me trouxe responsabilidades adultas e foi preciso reafirmar isso. Posso ter uma aparência mais infantilizada, mas não sou uma criança. Não mudei porque fui para a faculdade, eu sempre fui assim, mas não tinha coragem de sustentar isso na frente de adultos, mas agora eu também sou adulta e não faz sentido me calar para agradar aos outros.

Eu sei, muita gente nunca me viu pessoalmente falando sobre isso e talvez nunca veja, porque dá pra entrar e sair dos espaços com leveza, tratando dos temas comuns daquele local específico e não brigar por qualquer coisa. A internet é só uma janela. Mas se virem, saibam que essa também sou eu. Eu falo com firmeza, não finjo que não sei coisas para deixar homens inseguros parecerem mais inteligentes, converso de igual e para mim um debate tem que ser assim.

Um dia tive vergonha de ser como sou, já chorei, já me vi como um incômodo, já me esforcei pra mudar e só fiquei deprimida. Porque não dá pra ser outra pessoa, não há nenhuma recompensa em se matar emocionalmente para atender a uma demanda externa. Não existem coisas de homens e coisas de mulher, existem gostos pessoais. 

Hoje, depois de muita luta interna, me orgulho por acreditar na PRÁTICA política, no dia-a-dia, na vida fora da academia (apesar de eu ser muito acadêmica), por estar aberta para abraçar quem precisa do meu abraço, por saber que não é apenas discurso, é quem sou.

Este desabafo não é sobre minha luta para acreditar em mim, mas sobre acreditar APESAR de todo esforço para me colocarem como esquisita, malvada ou fora da curva. Eu sou muito família e os ataques direcionados ao meu marido como se eu o diminuísse por fazer análises políticas no instagram interferiram muito na minha autoestima, me fizeram desprezar quem sou e a forma como faço. Até perceber que não, essas pessoas não se importam com as maldades do mundo, elas não se mobilizam para atacar quem é cruel com os outros, mas elas criam um peso sobre pessoas que não se curvam a sua lógica de como as coisas devem ser. Elas não atacam pedófilos, não lutam contra a violência masculina contra mulheres, não se importam com nada que é concreto, mas criam vilões para sustentar suas narrativas mentirosas de como homens e mulheres devem se comportar, apesar de serem infelizes.

Eu não mudei, essa sempre fui eu, sempre tive esse gosto, sempre fui estudiosa, sempre fui eloquente. Alguns viram essa versão para outros temas de meu interesse (como religião, por exemplo), outros conheceram com a política. A Tai que é "um amor" (como dizem) também é a que questiona, a que ajuda e que milita. Eu não tenho obrigação de ser agradável para amenizar esse traço da minha personalidade porque isso não é uma coisa ruim, eu realmente estou no local que deveria estar, mas realmente gosto de tratar os outros com educação. Só não esperem de mim que não responda provocações.

Se você não conhecia essa parte de mim até agora, MUITO PRAZER! 
Não é uma fase, é quem sou. Eu não mudei porque fui pra faculdade, apenas me tornei adulta. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário é muito bem vindo! Tenha moderação, educação e respeito :) Beijo