Gozar dos programas de um governo sem apoiá-lo não torna ninguém hipócrita. Ao cumprir os deveres de cidadão, como pagar impostos, por exemplo, tem-se o direito de usufruir de toda e qualquer proposta boa implementada. Visto que nenhum benefício ou melhoria deve ser considerado um favor do governo ao cidadão, não devem haver relações de gratidão (entre cidadão x governante). O que deve ter sim é o reconhecimento das melhorias ocorridas ao longo da gestão de tal governo frente a outro. Porém, isso não implica que o cidadão deva-lhe favores ou até mesmo voto, muito menos ser pessoalmente grato. Pois para haver democracia não pode haver relações de coronelismo e vassalagem .
Se o cidadão cumpre seus deveres, pode gozar dos direitos - e quando falo disso me refiro aos benefícios. Melhorar a vida da população é obrigação e função dos governantes, que só sobem ao poder para cumprir a constituição de 1988 que pressupõe uma vida digna para todo o povo brasileiro. Posto isso, não se deve negar os avanços de governo x, mas igualmente não devemos entender que tais avanços são frutos de amor e caridade, visto que política é um trabalho como qualquer outro e os que a encarnam devem cumprir seu papel.
Quando uma criança avança de série, elogiamos-na por seu esforço, mas nunca é negado que reter o conhecimento e ser aprovado é sua obrigação como estudante. Sem moralismos, podemos ver isso quando uma pessoa repete de série por muitos anos, pois tal atitude gera indignação. Ora, se neste caso temos uma relação de dever, direitos, benefícios e males, assim também ocorre em qualquer compromisso firmado; e em maior escala o compromisso do presidente.
Ser presidente não é ser pai do povo, não há uma relação direita e pessoal com as pessoas privadas (ao meu ver). Não posso entender o presidente enquanto um pai que por amor abre mão de muitas coisas por mim, pelo contrário, o presidente enquanto representante da União observará o que é melhor para o país, e isso pode gerar algum desconforto para a população. Enquanto cidadã posso e devo ser acolhida e cuidada pelo Estado, mas no momento que infringir suas regras terei um retorno.
Quando um político dá uma dentadura a uma pessoa muito carente ela fica eternamente grata e lhe dá seu voto. Ao abrir vagas em universidades muitas pessoas tiveram o mesmo sentimento e lhe deram seu voto. Não há grandes problemas grandes. O problema maior consiste em considerar que todos os que são beneficiados deve POR GRATIDÃO retribuir "o favor". Nenhum negro, pobre, cotista, bolsista, estudante de universidade federal, historiador, tem por obrigação votar em partido x ou y. E nenhum desses nega a História ou são inconscientes e/ou burros caso queiram votar em outro partido.
Nenhuma melhoria é um favor! Terrorismo psicológico buscando desestabilizar tais grupos - assegurando que se eles têm que retribuir o favor com votos- é uma violação ao direito de liberdade. Talvez uma violação maior/pior do que não melhorar a vida desses grupos, pois assim como o escravo que sempre precisava trabalhar para pagar sua dívida, esse cidadão sempre precisa votar para assegurar tais melhorias (que são OBRIGAÇÃO do governo para com o povo).
Por medo de perder o poder (do grupo x), e medo de que o grupo atual continuasse no poder (grupo y), vimos ao longo de dois meses os piores tipos de ofensas verbais e físicas a quem se opunha a uma visão política, especialmente no facebook.
Ao entender que não devo favores ao poder soberano -e neste sentido brinco com a figura do presidente-; que ele não é uma pessoa maravilhosa por trazer melhorias ao país que caminhem para uma vida mais justa - que é a luta atual; e que se eu desejar, posso sim votar em outro partido por considerar sua proposta mais adequada no momento, não estou agindo com demagogia ou hipocrisia, estou apenas fazendo uso de minha LIBERDADE para exercer a tal democracia.
E claro, se alguém quiser votar no partido que detém o poder, tem igualmente liberdade. Mas sem ferir psicologicamente a liberdade do outro.
ps: Os políticos brasileiros são o retrato de uma população que não sabe discutir política sem que isso acabe em ofensas, como uma briga de vizinhos. Aliás, todos lutamos pelos nossos interesses, por mais altruísta que atitudes políticas possam parecer, só brotam da busca por vingança/ou justiça - gerada por raiva, por ver alguém sofrendo. No fundo, quase tudo que fazemos pelos outros é mais uma causa nossa do que do grupo que buscamos favorecer.
Sem mais considerações encerro o texto com minha péssima concordância verbal/nominal.



2 comentários:
Gostei do texto Tai.. Parabéns!
Obrigada Ana! :D
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