Ouvi um grito, me silenciei. Foi um grito incomum, não de dor, não de angústia ou rancor. Tinha tanto sentimento que deu até curiosidade. Ouvi outro grito, fiz questão de me esgueirar por aí para saber do que se tratava e não tinha ninguém. Me vi sozinha e suscetivamente ouviam-se mais gritos que arrepiam os cabelos apenas pela surpresa de ouvi-los, não resisti, fixei bem os olhos em um ponto fixo pronta para identificar de onde vinha o tal 'ruído', pisquei e percebi que pareciam brados de liberdade. Mas de quem?
No dilema da solidão, olhar por uma janela e ouvir brados intermináveis numa tarde de verão pode e parece ser arrasador. Tentei me esforçar ao máximo para descobrir de onde vinham só não consegui perceber a minha voz. Depois de tanto balbuciar em meio às lágrimas por estrar trancada sozinha em um péssimo lugar, ouvi o canto dos pássaros, o som de carros, senti a brisa suave em meu rosto. Aquietei-me para saborear o momento, pisquei.
E quem gritava era eu.
Numa fração de segundos olhei para dentro de mim e finalmente a última lágrima caiu. Liberdade. Como não reparei o som da minha própria voz? Como? Abafada pelas outras, a minha era só um ruído esquecido, o mesmo que chegou para anunciar tempos de liberdade, a auto-repressão estava acabando. E de repente os gritos sumiram e finalmente comecei a entender o som da minha voz. E aquela solidão foi sendo gradativamente substituída pela curiorisade, aquela sala foi substituída pela natureza e os gritos deram lugar a voz.
E percebi que eram apenas sinais de que os grilhões enferrujados estavam se despedaçando e que havia alguém dentro de mim que comemorava cada vez que me abria mais para o mundo real. Na verdade, era apenas eu tentando sair para descobri que as coisas simples nos fazem viver.



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